sexta-feira, 7 de maio de 2010

Compra-se colo quente e palavra gentil



C
hego na loja e entro decidida, passos firmes, pé ante pé em direção ao balcão principal. Uma mulher de aparência rude, não muito disposta a atender, me dá um sorriso amarelo de velhas amigas. É, eu sei que te conheço de tempos atrás. Já vim aqui uma vez, e voltei pra casa levando um amor aos farrapos, estragado, torto, de qualidade zero. Como eu não queria pagar muito, não quis sofrer, não levei um cara legal. Mas dessa vez era diferente, andei em linha reta até aquela mulher de meia-idade, com cara de quem se machucou muito um dia, e por isso talvez seja tão rude.
- Bom dia.
- Bom dia, o que você gostaria? - com um sorriso de quem avisara que, tendo levado produto ruim, sabia que o resultado seria um desastre.
Quis dizer que não foi culpa minha, que eu era inexperiente na época, mas achei melhor não falar nada.
- Quero um cara legal. E que cuide de mim mesmo com TPM.
- Esse já está esgotado, minha filha. Que ature TPM só tinha alguns poucos, que já acabaram.
- Ah, entendi. Mas eu vou te explicar como eu quero, e a senhora tenta entender.
Com ar de quem já está de saco cheio de explicar que príncipes não saem por preço barato, ela olha para meus olhos e escuta sem muita paciência.
- Eu quero um homem que mande flores sem motivo, e que insista em não me deixar andar no chão gelado sem chinelos para eu não ficar resfriada. Quero um homem que aceite um pouco de manha, e ria dos meus ciúmes bestas. Quero um cara que mande mensagem no celular, no meio de uma tarde de quarta-feira chuvosa em que tudo parece meio chato, só para dizer que me ama, e que sente saudade. Que saiba do meu medo tão maior que eu de encarar o amor, que seja paciente quando eu me transformo em menina e que saiba aproveitar com malícia minhas horas de mulher. Um homem que me deixe com saudade só por caminhar até a prateleira do final do mercado, e que me faça suspirar aliviada quando o veja voltando e sorrindo com uma garrafa de coca-cola na mão. Quero o que não se incomode quando eu encoste meus pés gelados nos dele para ele esquentar durante a noite, que goste de deitar na rede comigo para deixar o dia passar, que não grite quando eu estiver de TPM e chorando por ter deixado o omelete queimar na frigideira. O homem que deixe bilhetinho escondido nas gavetas ou na minha bolsa pra me fazer sorrir sem motivo, que faça a brincadeira do beijo de esquimó e que não tenha vergonha de demonstrar afeto na frente dos amigos. Quero o que não fique bravo pela minha mania chata de cuidar da sua alimentação ou de não suportar tapetes embolados no chão. Quero o homem que saiba que eu sou uma mistura, que compreenda que a mesma que faz perder a cabeça é a que descabela e chora de ciúme. Quero o homem que escolha um dia pra desmarcar compromissos, adiar reuniões e fugir comigo pra um lugar escondido e só nosso. Quero olhos brilhando e passeio de mão dada, quero fugir da burocracia de apresentar e conhecer mães para passar mais tempo cohecendo ele.
Com um olhar perdido no tempo de quem já teve tudo isso, e tanto se feriu, tentou me alertar:
- Ah, esse é mais caro! Fica por 249 choros soluçosos desesperados e 135 apertos esmagados no peito de saudade, em parcelas de noites mal dormidas e faltas de ar.
- Tudo bem, é o preço. - digo, com um medo crescente, mas boca, olhos, e corpo inteiro decidido - Tem garantia?
- Não, não tem como! Não dá pra saber quanto tempo ele vai durar, e nem mesmo cobrimos coração manco ou quebrado antes da hora, muito menos insanidade, unhas roídas e tristeza profunda. - agora sua expressão trazia uma nostalgia que quase enchia seus olhos de lágrimas, os de vendedora rude, enquanto falava - Desse modelo só tem mais um. Amor bom é um cara legal, que tenha tudo isso, que saiba amar e ensinar a amar, mas que custa caro. Você vai chorar, vai doer e talvez leve um pedaço de você, te faça um rombo no peito. Mas vai te corbrir de flores por dentro, vai te fazer ver as coisas bonitas da vida.
- Eu vou levar.
Como criança que acaba de ganhar presente, voltei com meu amor novo no colo. Não olhei para trás, mas imaginei aquela mulher triste chorando, por trás da armadura tão forte. Embalei meu amor no colo, soprei beijos de carinho e abri um sorriso de orelha a orelha. A dor virá, um dia. Mas agora é sorrir, viver. Amar um homem.

Clarissa M. Lamega

9 comentários:

Luiza disse...

um amor sempre faz coisas mágicas na gente. mas tem conseqüências depois. acredito que é melhor amar e depois sofrer do que nunca ter amado. a moral é aproveitar o quando dura, sentir e viver cada momento. adoooooreiiii teu texto, tu escreves divinamente, ficou criativo e suave e eu também quero um homem assim *-* beijos

B. disse...

mas que lindo!
achei muito interessante esse teu texto, realmente, homens que aturem tudo pelo o que passamos é tudo oque precisamos.

bjos.

franck disse...

"Que seja eterno enquanto dure", nos disse o poeta maior um dia! Lindo texto!
Bjs!

Gabriela F. disse...

Um amor desse é o que todas nós pedimos, né? *-*
"A dor virá, um dia. Mas agora é sorrir, viver. Amar um homem."
se a gente pensasse assim e não tivesse tanto medo, aproveitariamos BEM mais.ta lindo, flor! AMEI.

ah, e MUITOO obrigada pelo carinho lá no blog, viu?
beijos

Clarissa M. Lamega disse...

Ah, gente, nem sei como agradecer. sabendo que o que escrevo agrada a vocês, me deixa muito feliz! é isso mesmo, deveríamos ter mais coragem para encarar um amor bonito, mesmo sabendo que vai doer. porque tudo tem o lado bom, né?
e Gabriela, de nada, eu que agradeço por me dar essa senação gostosa de quando alguém escreve o que nós sentimos.

beijocas

Amanda Arrais disse...

Absurdamente criativo. O amor é isso mesmo! Acho que todos deviam ser capazes de entender que todo amor há de trazer um pouco de dor, faz parte e vale a pena.

franck disse...

Clarissa, conheci Caio F. Abreu aqui em São Luís, isso uns 20 anos atrás, qdo ele veio ministrar uma oficina para 'escritores iniciantes'...Ele iniciou a oficina com um conto meu, olha que luxo, e, lembro dele toda a semana muito magro, lânguido, com uns cristais nas mãos...
Pedir p/ele autografar 'Os dragões n/conhecem o paríso', deveria ter levado todos os livrosdele que tinha, né?
Bom fim de semana!

Camila Paier disse...

"Embalei meu amor no colo, soprei beijos de carinho e abri um sorriso de orelha a orelha. A dor virá, um dia. Mas agora é sorrir, viver. Amar um homem."
Tô encantada, guria! AMEEEEEEI. Sério, que coisa linda, tu tens escrito cada vez melhooor hahaha
Amei, mesmo. Sempre me traduzindo!
Beijoca Claa

Clarissa M. Lamega disse...

Obrigada, Amanda e Camila, você são sempre muito doces! Sinceramente, adoro o que escrevem, e sempre dou uma olhadinha.

beijos

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