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terça-feira, 27 de março de 2012

Das promessas bem-vindas


Eu lembro do dia em que você se apaixonou pelo rasgo no meu peito e firmou um contrato de que seria meu lar, meu colo, meu refúgio de proteção. Você queria me cuidar e pediu que eu despisse os medos e o sufoco na sua casa, na sua cama, no seu peito. Você me deixou mastigar cada pedacinho do que você era, na minha voracidade em ter e pertencer. Me deixou penetrar no seu mundo, como se sempre tivesse sido meu o lugar reservado do outro lado do seu colchão. E também o espaço para deixar meus livros na sua cabeceira, e o lugar deixado para guardar minha escova de dentes no armarinho do seu banheiro. Seus olhos me diziam no silêncio absoluto que era eu quem você esperou por tanto tempo. E seus dedos no escuro dedilhando minhas costas, nuca, barriga, coxas. Seus dedos repetiam que sou eu quem você queria pra bagunçar a tua vida.
A chatinha, mesquinha, faladeira, que ri de tudo e não se importa muito com nada. Eu, a tua menina, tua confidente, teu aconchego, tua mansidão calada. Você, a minha escolha mais bonita. Mas num dia preguiçoso, quem sabe em um domingo quando a gente estiver só esperando o sol se pôr pra se amar sem querer saber se amanhã é segunda-feira, nesse fim de tarde morno eu vou te falar baixinho que também era você quem eu esperava esse tempo todo. Nos dias seguintes eu vou te mostrar sem precisar dizer nenhuma palavra como você deixa as coisas tão mais lindas e vou falar da minha vontade de fugir contigo pra qualquer lugarzinho perdido pra refazer a minha vida e a tua.
Agora mesmo eu ando esquecendo de todas as dores que eu já senti um dia, e de todos os caras que se aproveitaram do espaço no meu peito que sempre foi teu. E eu decidi promover um surto de amnésia induzido de todos os idiotas que tentaram acabar comigo. Agora eles são poeira, são nada. Porque é simplesmente maravilhoso descobrir que era beijando as pintinhas da sua barriga para escutar teu riso mais bonito que eu teria um pouquinho de paz. E saber que é nas falhas da sua barba, nas pintinhas da sua íris que se espalham ao redor das pupilas, nos contornos das suas mãos que eu sou feliz de verdade. Apagar tudo o que eu fiz até você chegar porque afinal nada era tão bom enquanto eu ainda não te escutava cantando no chuveiro e embromando as partes em que você não sabia a letra. Nada seria tão perfeito quanto não fazer nada ao seu lado, e isso jamais alguém entenderia.
Eu vou pedir pra ficar pra sempre deitada nas suas costas, ganhando cafuné, cantando Cazuza pra você enquanto deitamos na rede deixando o dia passar de mansinho. Vou te deixar bilhetes no bolso do seu casaco, te ligar com saudade logo de manhã. Vou te acostumar aos meus dedos acariciando sua nuca, seu peito, seu coração. E você vai saber que te sinto sempre por perto quando você não está aqui.

Clarissa M. Lamega

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Vai


Não gosto de quem só fica quando não dói. Quem só ama enquanto ainda é seguro. Quem quer que eu fique só enquanto ainda tá dando pra levar. Não gosto de você com sua vida feliz, e seus amigos felizes e seu perfis felizes na Internet me deixando tão infeliz. Não gosto quando você me precisa pra dois minutos e depois sentir que sou totalmente dispensável. Não gosto quando você vai pra cama de noite cheio de mim e fica dias sem dar as caras. Não gosto quando você me cobra coisas invariavelmente absurdas e que exigem que eu leve um soco na cara pra você não precisar desfazer o seu sorriso lindo de dentes perfeitos. Não gosto quando eu dou um pedaço de mim pra ter um pouquinho de você por perto mesmo sabendo que vai sumir de novo. Não gosto de quem quer meus pedaços e não me quer por inteiro. Vai embora, vai.

Vai porque eu já não quero mais saber de você por aqui. Vai porque eu choro sozinha no escuro do meu cobertor nos dias em que você tá em qualquer lugar por aí com algum amigo curtindo a tua vida perfeita. Vai, por favor. Vai porque o nó na garganta tá acabando comigo e eu já não sei quando eu vou querer viver de verdade e quando eu vou acordar com um amargo na boca e uma vontade de pular de um décimo andar. Vai,vai, vai. Eu já não quero mais ter tanta vontade de te chamar de “meu amor” de novo. Eu já não quero mais me lembrar como é segurar por muito tempo a tua mão, ou andar de bicicleta ou te beijar devagar sem ninguém poder nos ver. Eu já não quero mais saber como era o cheirinho do seu cabelo naquele cantinho atrás da orelha e como era beijar a sua nuca e ver seu corpo inteiro se arrepiar. Vai. Eu não quero mais saber como era sua voz sussurrando no meu ouvido “casa comigo, casa comigo, casa comigo” mil vezes, sem parar. Vai que eu não quero mais alucinar que estou ouvindo sua voz me chamando no quarto, não quero mais tomar café da tarde olhando pra cadeira vazia do meu lado. Vai que eu não quero mais te acordar com um beijo de manhã, vai que eu não quero mais te pedir pra ficar com o teu silêncio amedrontador como resposta. Vai que eu não tenho mais solução medíocre que te inclua ficar e me fazer feliz. Vai, vai, vai meu amor. Vai que é a última vez que eu espero ficar assim tão vazia andando sozinha pela rua o dia inteiro, vai que eu não agüento mais todos por aqui me perguntando aonde é que você foi parar, com o silêncio gritante no meu peito que também queria tanto saber. Reza já não adianta mais, a paciência já foi pelo ralo há muito tempo e já enjoei de sentir meu corpo se arrepiar lembrando de como você ria alto e segurava na minha cintura o tempo todo muito forte pra não sair jamais. Vai, já não vejo mais suas mãos por aqui, agora.

Se você tá tão feliz quanto me parece, vai. Sua felicidade extrema e extravagante me assusta. Não quero você me pedindo quando eu não posso mais. Não quero que você volte essa semana pra me dizer tua agenda completa porque ninguém mais se interessa nos seus programas semanais e ninguém mais quer tanto te cuidar quanto eu. Porque ninguém mais no mundo quer saber como anda sua casa, se vai ser reformada ou acabada, se você vai começar aquele curso esse mês ou se sua família quer te apresentar uma garota péssima de vida planejada. Ninguém mais no mundo se interessa se você anda se alimentando bem, se anda dormindo bastante, se você tá feliz assim do jeito que tá. Se você tá feliz mesmo sem nunca mais ter ouvido minha voz. Você me conta coisas secretas que ninguém mais no mundo mereceria ouvir. E eu me sinto tão especial e lembrada que me dá combustível pra mais duas semanas sem você aparecer. Mas dessa vez, to falando sério: vai. Nada no mundo pode ser pior do que a agonia de te esperar voltar.


Clarissa M. Lamega

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Oi gente!

Tô sem internet há dias, e infelizmente não está dando pra postar como antes... Mas o blog ainda não está abandonado, hahaha. Vou continuar a postar sempre que eu puder! Encontrei esse texto no computador e não lembro de quando é, mas pensei que vocês poderiam gostar.

Beijões, e fiquem com Deus.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Do ano que renasce


O que eu mais vi até agora são desejos incessantes para que o novo ano que vem por aí. Nada de mal até aí, é muito bom fazer planos, sentir que tudo se renova em um piscar de olhos, desejar o bem nos próximos 365 dias. O que me causa um desconforto enorme, um enjoo bem fundo do estômago é essa mania chata das pessoas de achar que o ano foi ruim. Pare para avaliar: foi mesmo tão ruim assim? E se foi, por culpa de quem?
Coisas ruins acontecem o tempo todo. E claro, o ano que termina agora pode estar carregando a lembrança de mágoas terríveis, falecimentos de pessoas que amamos, uma pá de desavenças e dores que talvez nunca saiam de nós. Não é proibido chorar, sentir dor ou desejar sumir pra um lugar bem bonito e esquecido do mapa, às vezes. O que é inaceitável e que deveria ser proibido por lei é declarar luto eterno por qualquer dor que nasça no peito. Se trancar às novas oportunidades, oprimir as coisas bonitas que aconteceram no ano só porque o que doeu pesa duzentos quilos a mais na alma.
Olha aqui, você não pode fazer isso de jeito nenhum, ok? Eu te impeço de todas as formas que eu puder de insistir no pensamento mesquinho de que neste ano foi só tristeza! Lembra do dia em que a gente chorou de rir porque nosso amigo idiota fez uma piada do seu ex? Lembra de quando saímos pra dançar e queríamos que a noite não tivesse fim, porque tudo parecia perfeito? E a pizza, a saidinha escondida, as pessoas que conhecemos, as piadas e apelidos, as risadas e tudo o que achamos engraçado até hoje? Estávamos juntos, e é o que importa. Sabe aquele dia em que eu sentia uma dor do tamanho do mundo no meu peito, e eu queria muito que você chegasse logo pra me trazer um pouco de paz? Saber que você podia dividir um pouco daquilo comigo já me fez tão bem que logo surgiu uma piada e a gente botou a angústia pra dar umas voltinhas e não encher mais nossa vida.
Eu te proíbo de avaliar o ano sem levar em consideração as notícias mais engraçadas, os tombos que nos faziam rir, as músicas que inventamos e cantamos sem parar, os nossos dias de glória e melhores surpresas adversas. E quando você resolver resvalar nesta afirmação de que o ano passou em branco, coloque na ponta do lápis também o dia em que rimos porque ninguém tinha dinheiro pra nada e também aquele outro dia em que nos estapeamos pra ver quem tinha acertado a charada antes. Lembre do café na minha casa, dos nossos rolos sempre muito bem enrolados, dos churrascos, das festas, dos dias dividindo colchão.
Também peço que nunca esqueça que eu estive aqui com você. No dia em que você reprovou no DETRAN, quando você chegou chorando porque aquele idiota aprontou de novo, no dia em que uma pessoa querida faleceu e eu só podia te dar meu ombro pra te consolar. Estive com você quando partiram seu coração e eu queria mesmo era partir a cara do desgraçado. Fiquei do seu lado quando você conseguiu um emprego novo, quando você comprou seu carro e quando você precisava que eu te fizesse companhia. Também escutei teus lamúrios de que queria matar o pedreiro que fez cagada na sua casa, de que tudo tava uma merda e que precisava muito falar com alguém. Eu sempre estive aqui, e sempre estarei aqui, tá? Eu só queria que você soubesse que meu ano foi demais por poder participar de tudo isso com você.
Antes de pedir muito que o ano que passou seja enterrado porque as coisas foram ruins, feche os olhos e faça esse agradecimento por ter passado por tudo o que doeu e que te fez amadurecer e olhar com outros olhos para as coisas. Agradeça com seu coração por ter crescido como ser humano. E peça pra que o Ano Novo seja simplesmente extraordinário! Peça pela paz, a sua e a de quem gosta de incomodar para que não tenha mais motivos pra te atrapalhar. Peça o bem, a saúde, e momentos iguais ao do ano que está no finzinho. Vamos desejar juntos o dobro de risadas, o triplo de histórias novas e 365 dias contando um com o outro. Então agora eu posso dizer que meu ano foi incrível por te ter ao meu lado. Pode chegar 2012, estamos prontos pra tudo!

Clarissa M. Lamega

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Dedico este texto aos meus AMIGOS, que fizeram o meu ano ser simplesmente espetacular. Obrigada! Como eu vou entrar em férias agora, vou parar de postar por uns dias. Mas agradeço o carinho que vocês tem por este blog, que é meu xodó, e principalmente, desejo a vocês um começo de ano fantástico, recheado de felicidade e coisas boas! Feliz Ano Novo!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Da falta que faz


Eu queria te dizer que às vezes, escondido, eu olho aquela foto em que você está com o cabelo todo jogado e fazendo uma careta absurdamente ridícula do meu lado. E te dizer que às vezes, eu sentia vontade de te dizer que te amava desse jeito absurdamente ridículo que eu sei amar. Dessa maneira de vai-não-vai inquietante, insegura. Um dia eu quis te dizer que pude escutar tua voz chamando meu nome, e que pareceu tão real que eu fui conferir se não era mesmo você. Quem sabe fosse, com o vestido floral e perfume fresco que me fazia desviar os cabelos da sua nuca para eu grudar ali e nunca mais deixar de sentir aquele cheiro só seu.

Eu sinto sua falta. Eu sei que a culpa é minha. A culpa da discussão escandalosa, da porta trancada pra nunca mais voltar, a culpa do desfecho mal resolvido e da saudade que ficou. Quem sabe esta saudade ande passeando pela sua casa como ela aparece de surpresa por aqui quando eu acordo sem sentir seu corpo quente enroscado no meu braço. Nunca mais acordei com o perfume do seu cabelo jogado em cima do meu peito. Nunca mais te senti vívida dentro de mim.

Eu te espantei pra longe, menina, eu sei. Eu ignorei seus versos decorados e excluí da memória tuas cartas e frases soltas que me davam vontade de te pedir em casamento todos os dias. Mandei pra longe a lembrança do seu olhar misto em serenidade e mistério que me fazia querer descobrir todos os seus segredos, a sua gargalhada que me fazia rir, a sua maneira de passar o café enquanto eu te observava distraído. Eu quis esvaziar meu coração e minha casa de tudo o que lembrava você.

Minha mulher, minha menina. Minha. Você era minha e eu não sabia lidar com isso. Eu perdi o jeito de te fazer feliz. Um dia você chorou na minha frente e perguntava repetidamente se eu te amava. E eu não sabia como explicar que aquilo não parecia amor porque era muito maior e voraz do que amor. Me devorava por dentro e tirava a minha capacidade de percepção das coisas. Nunca consegui te dizer que eu tinha medo de te perder, que eu nunca quis perder isso que a gente tinha de deitar no seu colo assistindo TV e dividir o cobertor nesse frio que às vezes faz aqui sem dar a mínima para o que acontecia sala afora. E que por isso eu te mandei embora: antes que você fosse por conta própria.

A gente ainda joga um jogo estranho entre frieza e sumiço, orgulho e proteção. Eu já te perdi e a única coisa pior do que isso seria um dia te perder de novo. Então eu deixo ir. Eu deixo desaparecer os rastros do seus pés pequenos dentro dos meus chinelos, e finjo não ver os fios de cabelo comprido que às vezes ainda encontro enroscados no meu lençol. Esqueço a intimidade que a gente tinha de poder compartilhar o tudo ou o silêncio, a maneira como você gostava de falar uma bobagem que me fizesse rir sozinho lembrando depois. Não ouço mais nenhuma das músicas que você tivesse um dia comentado comigo, deixei escondida no armário a blusinha que você esqueceu aqui quando eu quis tirar você e tudo o que fosse seu da minha vida.

Eu nunca vou esquecer do dia em que, depois de tanto eu insistir, você se foi mesmo. Tento imaginar como eu poderia te explicar por quê te mandei ir dessa maneira tão assustadora e bruta. Talvez porque eu sinta medo, ou talvez porque alguma coisa ínfima nos nossos momentos de brigas me dissesse que nunca daria certo. Talvez, talvez, talvez. Acho que eu nunca vou saber. Só não quero enlouquecer sentindo o cheiro do seu perfume aparecendo na minha casa feito assombração, nem qualquer 'eu te amo' que você já tenha me dito em um momento que eu senti necessidade do seu cuidado. Eu só quero esquecer do quanto eu fui feliz. O problema nunca é o que vai; é sempre o que insiste em ficar dentro da gente.


Clarissa M. Lamega

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

"O ato de escrever não é sofrido. Sofrida é a vida"


Esta foi uma das afirmações da escritora gaúcha Martha Medeiros no encerramento do Paiol Literário em Curitiba ontem. Ela se referia ao prazer que a escrita traz, e em como é bom escrever como "válvula de escape". Neeem preciso dizer que eu fiquei quase louca de ter a oportunidade de conhecer ela, né gente? Quem me acompanhou feliz da vida foi meu amigo Douglas Lenon, do blog eu te toco também, pra marcar mais uma de nossas histórias juntos. Vocês que lêem o blog aqui sabem que eu adoro postar as frases das crônicas e livros (20, ao todo) dessa diva! Dentre os assuntos tratados, ela comentou sobre como começou a escrever (com poesias feitas no seu quarto), sobre a sua rotina e como suas filhas encaram sua escrita, e confessou que a maioria de seus textos são extremamente autorais, e que portanto possui uma certa dificuldade para escrever ficção. O que só me deixou ainda mais apaixonada por ela, porque eu me identifiquei com isso.
Não posso deixar de dizer também que ela é uma pessoa simpaticíssima, aliás bem mais do que eu imaginava, e simples de tudo. Não se coloca como uma "grande esritora", mas, acima de tudo, como uma mulher como qualquer outra. Surgiram histórias engraçadas como o impacto que sua literatura causa no público, muitas vezes por assuntos considerados "bobos" ou "ingênuos", como quando Martha criticou em uma crônica como os passarinhos a acordavam cantando às 4 da madrugada irritando-a, e recebeu uma chuva de ofensas indiganadas por e-mail, "quase sendo perseguida pelo Ibama", brincou a escritora. Narrou também uma situação de outra crônica levada para o lado pessoal pelo público, em que Martha comentava sobre mulheres que ainda tinham ursinhos de pelúcia em casa e recebia e-mails do tipo "nunca mais lerei mais nada seu". "Mas acho que depois essas pessoas me perdoaram e só não me contaram", disse a escritora, rindo.


Martha Medeiros é super bem-humorada e sincera, além de ter uma proximidade enorme com seu público. Posso dizer com certeza que realizei um sonho ao conhecê-la! Foi uma surpresa agradável perceber que, no palco, dava uma tremedeira enorme fazer uma pergunta com o microfone, mas que no cara-a-cara parecia que nós já éramos amigas de tempos! Isso por conta da maneira como ela nos trata, sem a "barreira imaginária" de autor e fã. Gente, é incrível ver como ela é simpática e engraçada pessoalmente. Depois que terminou a entrevista, eu e o Douglas conseguimos falar um pouquinho com a Martha sobre o Caio Fernando Abreu, e no mesmo momento ela abriu um sorriso dizendo que o conheceu pessoalmente, e chegou a almoçar com ele na década de oitenta, antes mesmo de ela publicar seu primeiro livro (de poesias). Afirmou, ainda, que ele foi um dos seus grandes incentivadores a iniciar a escrita.


Na correria para sair de casa, esqueci que eu tinha o livro Coisas da vida para ela autografar, aí teve que ser em uma agendinha mesmo! hahaha
É por tudo isso que eu aconselho, para quem gosta de ler Martha Medeiros, conhecê-la um dia se tiver oportunidade, porque ela é um amor de pessoa! E eu fico aqui ainda suspirando eternamente por ter tido essa chance! (:
Um beeijo a todos que passam por aqui diariamente.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Luz do mundo



Penso sempre que, amor, amor mesmo, daqueles que tudo-perdoa-tudo-pode-tudo-alcança é visto por poucos nesse mundo tão sozinho. Aquele amor que faz os olhos brilharem, que enxerga felicidade na presença, que faz o coração pular, que arranca choro de emoção, que dá vontade de gritar de felicidade - amor assim é raridade. Amor pra vida toda se tornou historinha pra boi dormir. A idéia de amor pra sempre virou calmante para aqueles que não conseguem dormir à noite por medo de morrerem sozinhos. Estamos em um estado que até meio fio parece uma barreira intransponível. Alguém pergunta pra Deus aonde é que foi parar o amor?
A gente ainda vai dar muitas voltas até descobrir que está escondido dentro da gente, só esperando pra acontecer. Esperando pra brilhar, pra espalhar, pra afugentar o mal. O amor está lá, quietinho, esperando nossos dedos tentarem resgatá-lo do fundo do nosso peito para trazê-lo à superfície. Perfeição é a maneira como Deus desenhou com seus próprios dedos as linhas da sua vida. E com sutileza, com afeto, com ternura, soprou sobre você a felicidade e te deu a benção que é poder sorrir apesar de. Apesar do medo, se pode sorrir. Apesar do aperto, se pode sorrir. Apesar do tédio, da amargura, da falta de coragem, se pode sorrir. Coragem! Ainda há tanto para comemorar antes de entregar os pontos.
Ame-se. Deus fez tua boca para amparar, tua gargalhada gostosa pra se espalhar por aí, teus olhos para refletirem o que há em sua alma, seus braços para abraçar quem precisa. Deus fez lindamente seus ouvidos para aprender, seu coração para sentir e sutilmente pincelou amor nesta obra de arte. Te deu o dom de amar incondicionalmente, de rir escancaradamente, de se encantar maravilhosamente, de desmistificar a felicidade, de estrangular o medo, de dar um pouquinho de paz a um peito cansado. Deus te deu essa alegria que cresce quando em conjunto, o dom se saber-se forte, a possibilidade de reconhecer suas falhas, a experiência de aprender com elas. Deus te deu o presente da oração, a sabedoria de agradecer até mesmo por coisas ruins porque tudo é um plano Dele com um objetivo bom na reta final. Deus te deu a capacidade de correr maratonas quando você pensa que não conseguirá dar o primeiro passo. Deus cochicha as instruções em seu ouvido, coloca calor em seu coração para aquecer os invernos mais gelados da sua alma - e de outras almas também. Te deu capacidade de sentir com intensidade tudo o que vale a pena e de desfrutar da companhia de tantas pessoas especiais que caminham ao seu lado. Deus te carrega no colo quando tudo dói, chora quando você sofre e se alegra quando você sorri. Ele te observa andando pelas ruas pra que nenhum mal te aconteça e fica triste quando você faz coisas ruins. Deus te deu o privilégio de chorar no colo Dele quando você pensa que está sozinho. Não, não está. Ninguém te ama como Ele.
O amor está, está sempre, em todos os lados, escondido por todos os cantos. Só vê quem enxerga com o coração. Só enxerga quem o reconhece no sorriso do outro, em um abraço apertado, em uma gentileza a um desconhecido, em um olhar de cumplicidade. O amor é maior do que qualquer conceito sobre amor. O amor é simples, e por isso passa tão despercebido. Se for pra se matar, que seja de rir. Se for pra se drogar, que seja de afeto. Se for pra falar, que diga a verdade. Se for pra sentir, que coloque amor em cada gesto. Que tenhamos a feliz sutileza de abrir os olhos todos os dias e pensar: "eu sou a luz do mundo."

Clarissa M. Lamega

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Soltar a mão


Se só de escutar tua voz me falando no telefone eu choro baixinho pra você não perceber, diz como é que a gente vai ficar longe. Se eu respondo que "sim, tô meio gripada" porque o choro enrouquece a voz, diz como é que a saudade não vai sufocar cada pedacinho do que sobrou de nós. Se eu adormeço todas as noites rezando com a fé que você me ensinou a ter e com aquele seu primeiro presente entre meus dedos, me conta como é que eu vou conseguir daqui pra frente sem você. Se eu sinto frio na barriga ao fazer as coisas que a gente costumava fazer juntos, diz como é que eu faço pra não paralisar a minha vida. Se dá vontade até mesmo de deixar a louça suja na pia pra não lembrar da gente lavando juntos, conta como é que eu vou fazer as coisas daqui pra frente. Se eu não me lembro mais como era tudo antes de você, me diz como é que eu vou voltar a achar tudo bonito novamente. Se eu não escrevo mais pra não doer, se eu não sinto mais vontade de ficar na minha casa pra não sorrir sozinha por lembranças suas em cada cantinho inimaginável daqui, me conta como é eu faço pra não sentir mais vontade de sentar e chorar uma perda de um pedaço do que eu sou. Se você ir embora arranca alguma coisa vital escondida dentro de mim, fala como vai ser viver sem o que me faz sentir maravilhosamente viva. Se eu descobri como é infinitamente melhor viver dividindo o colchão e o prato de comida, conta como vai ser ver o espaço vazio ao meu lado.
Se eu sinto dor no estômago por medo de te perder, me conta como é que eu vou me sentir forte daqui pra frente. Se nem filminho happy end a noite inteira faz eu me esquecer de eu sorrindo ao ver você pegando no sono no sofá da sala, me conta como é que eu não vou olhar pras almofadas vermelhas sozinhas e não me sentir inteiramente sozinha também. Se eu não consigo me desfazer nem mesmo de um bilhete rabiscado em caneta vermelha no final do meu caderno, me conta como é que se perde a memória pra aprender a ser sozinha novamente. Se eu não vejo mais graça em festa nenhuma em que eu saiba que você não estará, me conta como não afundar no travesseiro cedo da noite pra tentar esquecer. Se até no meu sonho você aparece voltando para a minha casa, me conta como é que se esquece dos seus passos sobre as pedrinhas da frente da minha casa. Se a única pessoa que pediu o seu colo até hoje fui eu, me conta em que aconchego reclinar a cabeça quando parece que tudo vai explodir. Se eu imaginei como seriam nossos filhos, me conta agora quem é que vai ser pai dos gêmeos mais lindos do mundo. Se eu não consigo arrancar de dentro de mim tudo o que é seu, me conta quem mais vai conseguir fazer isso por mim. Se eu rezo cinco vezes mais que o normal, me explica como é que se pede a Deus para não me sentir esmagada em um pote de vidro.
Se eu sinto meu coração inchar e arder, me conta como se faz pra eu não me agachar no chuveiro chorando um choro que vem de dentro da alma. Se eu tenho medo de nunca saber amar, me conta como não invejar os casais felizes que dão beijo na ponta do nariz como a gente fazia. Se eu não sinto vontade de conhecer nenhum outro cara, conta como é que eu vou fazer pra continuar inteira mesmo sem você ao meu lado. Se não tem mais você na saída da aula, conta como é que se vai dormir me sentindo a mais sortuda do mundo. Se eu sinto um nó na garganta por saber que você não vem, me diz como não calar e parecer uma estranha dentro da minha própria casa.
Diz quem é que vai me preparar uma xícara de café com leite quando eu me atraso de manhã e quem é que vai deixar a minha escova de dentes com pasta em cima da pia do banheiro. Diz quem é que vai escrever "eu te amo" de pasta de dentes no espelho pela manhã e renovar os votos de namoro com os olhos cheios de lágrimas e brilhantes todos os meses do ano. Diz quem é que vai andar de mãos dadas comigo na rua e quem vai ter um abraço tão bom quanto o seu. Diz quem vai tirar as angústias do meu peito e aturar o meu mau humor repentino. Diz quem é que vai cantar pra mim e quem vai me dar segurança só de saber que está no outro cômodo da casa. Diz quem é que vai pintar um coração na sua camisa como contrato de amor até o fim da vida. Diz quem é que vai amar as minhas idiotices como você costumava fazer sempre. Diz pra quem é que eu vou contar todas aquelas bobeiras que faziam a gente rir. Diz pra quem é que eu não vou ter vergonha de fazer as nossas brincadeiras. Diz quem é que vai me acordar de manhã e dormir comigo até tarde. Diz quem é que vai merecer massagem nas costas doloridas e cafuné "para achar cabelos brancos". Diz como é que eu vou ficar sem sentir o cheiro da tua pele. Diz em qual peito mais eu vou deitar, em quais braços além dos seus eu vou me sentir à salvo. Conta qual mão mais vai se encaixar perfeitamente na minha como a sua sempre se encaixou. Diz com quem mais eu posso planejar meu futuro sem ter medo de tentar. Fala como é que se ama tanto sem sentir náuseas por não caber mais dentro de mim mesma. Fala como querer bem a você pode ser maior do que cuidar de mim. Me diz qual voz mais no mundo vai me dar um pouco de chão quando tudo vai mal. Me conta quem mais no mundo vai ter essa confiança plena que você sente por mim. Me conta pra quem mais eu vou entregar tudo o que eu tenho de mais bonito por dentro. Diz quem mais no mundo vai se conhecer da maneira como a gente se conheceu, me conta quem mais vai aceitar correr o risco que aceitamos correr. Me conta quem vai saber identificar tanto a felicidade em meio à simplicidade como nós soubemos. Conta quem mais vai se doar tanto como a gente fez. Diz quem é que vai merecer ocupar o lugar no meu peito que ainda é seu. Me conta como apagar o teu nome da minha pele, como esquecer do sorriso mais bonito do mundo. Conta como é que eu vou imaginar meus filhos sem teu nariz singular e sem os seus olhos de azul nítido. Diz como substituir o sentimento mais lindo que eu já tive por alguém por meia dúzia de palavras que cortam pela raiz o que é pra durar a vida toda. Diz como é que eu faço pra desatravancar o coração. Me conta o segredo pra eu parar de me sentir tão sua, porque nem eu consigo mais me orientar para outro caminho a não ser aonde você está. Me diz como me fazer desistir e ir embora, me conta como se faz pra fingir que não dói. Diz quem mais vai escutar "eu te amo" da minha boca, e quem mais vai chorar depois de escutar. Diz quem é que vai merecer o tamanho desse amor que eu tenho por você. Me diz como matar o choro entalado na garganta, como não ter vontade de te trazer para a minha casa e cuidar de você. Me conta como fazer um amor de verdade sobreviver em meio à falsidade toda desse mundo. Diz por que é que eu não consigo mais me sentir inteira em nada que eu faço. Me conta o que fazer com o que era teu. As coisas mais lindas dentro de mim são as tuas, os melhores sorrisos foi você quem me arrancou. Espero tua compreensão ao afirmar que a tua ausência deixa um buraco irreparável por aqui, e que tudo dói e fere quando eu estou sem você. Se te trouxer algum conforto, saiba que continuo rezando com uma fé enorme por você e por tudo o que ainda somos. Saiba que apesar dos pesares, eu continuo de pé. Fique bem, meu amor, e faça isso por mim.

Clarissa M. Lamega

terça-feira, 17 de maio de 2011

Ele


Não é a acusação infame dos meus dias de mau-humor chutando baldes adoidada. É a mão que se aproxima terna e amigável devagarinho por cima da minha durante o almoço de domingo. Não é o medo de um pesadelo que me faça quase implorar pra me acompanhar até o banheiro escuro para fazer xixi de madrugada. É o aceitar de dividir uma mesma cama no inverno mesmo correndo o risco de ter de deixar o cobertor quentinho para realizar o pequeno ato heróico de me proteger dos espíritos do filme de terror. Não é a impaciência pra esperar minha preguiça dar uma brecha e me dar coragem pra levantar de manhã. É o beijinho de "bom dia" risonho e a pergunta do "quer que eu te faça um café?" mesmo após eu ter acabado com as suas chances de uma futura esposa pró-ativa logo pela manhã. Não são as olheiras diárias por acompanhar comigo meus horários de dormir-tarde-acordar-cedo. É a demonstração irrevogalmente sincera da alegria que é presenciar minha rotina.
Não é o quase acúmulo de mofo por perder um domingo inteiro tomando bebidas quentes deitados por boa parte do tempo com a chuva pendente da semana inteira caindo lá fora. É ganhar o dia todinho por dividir as sobras do jantar inesquecível da noite anterior e transformar a simplicidade em banquete - puramente por acreditar que divisão é matéria de nobreza. Não é o dia terrível que me faz resfriar e ser tomada por uma fonte inesgotável de lenços de papel por todo canto. É você me comprando remédio e fazendo compras para minha casa mesmo no frio do cão que é esta cidade desde os primeiros dias de inverno. Não é o egoísmo de nunca querer sair debaixo da água quentinha do chuveiro. É te ver cuidando do meu resfriado como um pai de primeira viagem, mesmo estando doente também. E aí eu já consigo te ver daqui a uns dez anos cuidando dos nossos filhos com a maior corujice já registrada no mundo. Te vejo embrulhando a menina na toalha depois do banho e fazendo o pão do café da manhã que o menino vai tomar antes da aula. E você ensinando a jogar futebol e a torcer para o Atlético como a glória maior passada de geração em geração. Te vejo desajeitado arrumando o cabelinho cacheado da menina que é o xodózinho do pai. E por toda essa visão do futuro já vale a pena tentar ser cada dia mais para você.
Não é o atraso que nos força a sair correndo para os compromissos. São os tão preciosos cinco minutinhos a mais olhando bem dentro dos seus olhos e não desejando mais nada além disso no mundo. Não é o seu medo de alguma coisa dar errado. É a dedicação em me preparar pequenas surpresas para me conquistar todos os dias como na primeira vez. Não é o susto que eu passo a cada vez que te sinto estranho por um ciúme bobo. É amar a cada vez que eu encontro minha escova de dentes já preparada com a pasta me esperando em cima da pia. E por certas vezes também uma mensagem de pasta de dente no espelhinho do banheiro, que me lembra sempre o quanto é bom te ter na minha vida. Não é o tempo apertado, não são as tarefas domésticas que sufocam o dia. É ver o seu esforço em me ajudar em tudo pra gente poder se curtir sem permitir que o tempo passe quando chegar à noitinha. Não é por causa do vazamento do registro da torneira que me tira a calma. É a sua paciência de encontrar a peça substituta pra deixar tudo perfeito para mim. Não é o café servido no copo ao invés da caneca. É a divisão do vinho que você comprou ao meu gosto para me deixar feliz. Não é a mania de vidrar na frente de um jogo de homens disputando uma bola e um gol. É o costume de olhar pro céu noturno e sempre me falar para lembrar de enxergar a lua bonita que sorri para nós às onze da noite quando o cansaço toma corpo. Não é a teimosia de sair mal agasalhado em dias frios. É o cuidado em me cobrir de noite para que eu não sinta frio. Não é a mania de esquecer a aliança na beirada da janela depois de mexer com água. É a renovação sempre inesperada e linda quase semanal do pedido de namoro de que você tanto gosta. Não é o sono que te faz dormir no sofá. É o companheirismo de, mesmo caindo de sono, esperar meu esmalte secar para ir dormir depois.
É o toque sutil e quentinho das suas mãos, é confiar nas minhas mãos para fazer a sua barba, é a delícia de se deixar descançar com a cabeça deitada enclinada no meu peito depois de um dia inteiro. São as frutas picadinhas de manhã, é a divisão de um mesmo prato, e a risada divertida ao me ver almoçando de colher. É o amor pelos meus amigos, é a acolhida na sua casa, é me dar seus chinelos e ficar sem para eu não andar descalça. É me querer por inteira, mesmo preguiçosa, meio sincera demais e por vezes meio mesquinha também. É o me amar mais do que cabe no seu peito, o me abraçar como se não me visse há uma semana e o gostar do meu cabelo mesmo quando está embolado. É o carinho de segurar minha mão, de correr atrás de mim na rua como se voltássemos à infância e o se esconder atrás da árvore fingindo que já entrou em casa e me deixou para trás. É me carregar nas costas e me pegar no colo quando eu estou ruim. É elogiar a maneira como eu me visto, me acompanhar nas compras e fingir que ainda não cansou de andar pelas lojas até eu cansar também. É fazer café para mim e armar pegadinhas pra minha irmã. É considerar minha família como sua e ficar feliz de me ouvir pedindo no pé do ouvido pra morar comigo. É sentir o coração pular e se emocionar por ler um texto meu. É estar comigo mesmo que fisicamente se torne impossível. É escrever meu nome na janela embaçada só para se ver surpreso quando encontrar as letras outro dia, quando olhe pra ela de bobeira. É ser louco, apaixonado e prometer uma vida doce. É pensar a dois e não deixar que ninguém imponha solidão nisso. É amar a conversa, o formato da boca, os olhos, o rosto, o sorriso, o tamanho das mãos e a cor do esmalte da semana. É me amar infinitamente todos os dias deixando farelos de perdão e compreensão pelo caminho. É ser incrivelmente doce mesmo que a vida lhe imponha o amargo. Só você sabe como ser você, só você mexe fundo dentro de mim. Só você sabe como fazer eu me apaixonar e ter a certeza de desejar um único homem todos os dias da minha vida.

Clarissa M. Lamega

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Você está nas coisas tão mais lindas


Como a chuva que lava, teu sorriso faz de mim imensidão. E Deus lá de cima pára pra admirar como sua respiração forte em um abraço nosso faz meu corpo inteiro tremer. E Ele faz um 'shhhh' bem suave pra que o mundo inteiro fique quietinho e você escute meu coração bater forte por ver seus olhos marejados buscando fundo a minha alma, dentro dos meus. Aquele azul límpido que pisca, que pestaneja, que se espreme em um sorriso devastador e que vai embelezando tudo pelo caminho. O sorriso que não perdoa, que insiste em deixar as coisas lindas ainda mais lindas só porque você está. O mundo é mais bonito quando você está.
Seus olhos são o farol que me guia, que me puxa, que me traz pra perto de você. O farol mais azul, mais brilhante e certo do mundo inteiro. Aí eu descubro que é certo estar perto de você. Seguro a sua mão como quem atravessa uma ponte sobre abismo, com a certeza de que não existe mãos que se encaicaixam tão perfeitamente como as nossas se encaixam. É como se você, só por estar, já tivesse transformado guerra em território pacífico, você me entende? Deixa o ar mais leve, enche meu peito com uma plenitude suave. Quando você passa seus dedos nos vãos da minha mão, e depois aperta bem forte - pra nunca mais soltar - é como se existisse uma invasão com ares de segurança que cobrisse perfeitamente tudo ao redor. E o tempo já não importa mais, perder a hora é insignificante quando você está entre as coisas mais lindas que eu já vivi. Deito no seu colo sabendo que você sempre vai cuidar de mim, acaricio seu rosto e suas costas como se fosse a tarefa mais importante do mundo a se fazer. Porque naquele momento é a coisa mais importante e cuidadosa que eu poderia fazer dentre todas as coisas do mundo. Te faço pequenas surpresas só pra ver tua cara de bobo feliz, só pra admirar e arrancar um pedacinho daquele sorriso de olhos brilhantes que me cativa todos os dias. Passo a mão nos seus cabelos que eu mesma cortei, e experimento como é sentir a carequinha mais gostosa do universo de se tocar. Mordo seu queixo, sinto seu perfume e sei que você é mesmo o melhor presente que Deus poderia me dar. E aí eu ando de mãos dadas com você na rua pensando que as pessoas nem imaginam o quanto somos felizes só de saber que o outro está em algum cômodo da casa.
Uma das coisas que mais me faz feliz é ter você me acordando de manhã e dando um beijinho de leve pra não me assustar. E ver que você sente uma alegria forte meio sem motivo por ver a minha maneira preguiçosa de querer continuar dormindo quase todos os dias. E que você quer muito essa alegria preguiçosa todos os dias na sua vida. Te puxar pra deitar comigo na cama quentinha e esquecer do mundo lá fora que cobra tanta coisa sem sentido da gente. Coisas que nós dois não precisamos e nem queremos que fiquem dentro da gente. Deito no seu peito e espio seus olhos com um sorriso meio moleca no rosto de quem sabe que é feliz com muito pouco. Respiro o cheirinho da sua pele e sinto vontade de ficar grudada no seu pescoço pelo resto do dia, ou o resto da vida, se isso for possível. E é, eu sei que é. Eu sei que você chegou pra nunca mais ir embora, que é pra gente compartilhar uma vida inteirinha juntos. Olha só: Deus me contou em segredo que é pra eu cuidar de você, e que a nossa felicidade não é dessas fúteis e passageiras que se vê por aí. Ele me disse que a gente ainda vai muito longe, e eu boto a maior fé nisso, se você quer saber.
Quando você está, eu me sinto mais forte. Quando você prepara a mesa do café da manhã pra gente, eu sei que você é minha maior preciosidade. E quando você escreve um "eu te amo" de pasta de dentes no espelho, eu quase choro emocionada por te ganhar como o presente mais lindo que outras pessoas jamais vão experimentar. E quando a gente conversa baixinho olhando nos olhos eu sei que os outros nunca vão saber realmente o quanto somos agradecidos por tudo o que já passamos juntos. Porque mesmo tendo nada, fomos o casal mais feliz do mundo tomando café frio em cima da caixa de isopor enquanto pintávamos a minha casa. Porque fomos felizes dividindo um sofá, seremos felizes vendo um bando de toquinhos correndo em nossa futura casa. Porque quase choramos simulando um pedido de casamento, temos a certeza de que mesmo debaixo de um arbusto do seu trabalho faríamos uma cerimônia de casamento das mais bonitas do mundo. O que importa é o que sentimos por dentro.Caminhar até a minha aula com você está entre as coisas mais lindas. Incluindo andar de bicicleta, deitar na grama da pracinha, tomar sorvete e lavar o carro do seu pai. Estar com você é a coisa mais linda, e a que mais me tira o fôlego me dando tanto chão ao mesmo tempo. Eu quero te roubar pra mim, e uma vida inteira é pouco pra isso.

Ps. Quatro meses é pouco perto da vida que eu quero dividir com você.


Clarissa M. Lamega

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O melhor amigo


Não acontece sempre, mas há a chance de encontrar alguém especial na sua vida. Alguém em quem depositar aquele caminhão de risadas, de notícias, do novo aspirante a namorado, e ficar entulhados juntos na bagunça da sua vida. Seu amigo te dá colo, te dá esperança, te oferece um conselho - no meu caso, o mais sincero possível - e certas vezes até sente ciúme de você. Ele não é igual aos outros.
Ele te conta dos seus rolos com um drama passível de novela mexicana, e você escuta com o coração na mão sentindo com a mesma intensidade de uma novela mexicana. Vocês dividem tudo, certas vezes até mesmo o silêncio. Basta estarem lado a lado pra se divertirem. Riem do cunhado meio besta, do garçom safado, de estar escutando pagode no sábado à noite, de todo mundo achar que já deram uns amassos - ao passo que nunca seria possível e suportável acontecer nada entre vocês -, de quererem estar acompanhados quando estavam sozinhos, de saberem que não dava pra contar com mais ninguém no mundo a não ser um ao outro. E vocês dançam pulando no quarto pra mostrar que não estão nem aí praquele antigo cara que já é ex, comem chocolate como se fosse o último do mundo, dividem aquele momento chato de quando acaba um relacionamento que poucos tem a delicadeza e intimidade para dividirem. Vocês já sabem que serão amigos quando não tiverem mais tempo de se ver, que continuarão sendo amigos quando cada um achar seu pretendente - e este terá de ser aprovado pelo amigo - e que mesmo no casamento um será o padrninho do outro e que seus filhos serão criados juntos. Ninguém precisa falar isso para o outro porque o olhar de comunhão de sentimentos já prevê o futuro.
Você e seu melhor amigo já fizeram cagada juntos, já azararam juntos, já falaram muito mal do casinho um do outro, já descobriram que o casinho era aquele bolo de defeitos que o amigo já denunciava anteriormente, já beberam juntos, já dançaram até não sentirem mais os pés, já ficaram deprê juntos num sábado à noite, já choraram juntos. Você e seu melhor amigo sentem saudades um do outro quando já não se vêem há uma semana. Você sente necessidade de contar tudo o que acontece na sua vida pra ele, e quer poder escutar sempre o que acontece na dele também - porque sente falta de escutar os comentários mais absurdamente sinceros do mundo e rir com isso. O dia em que você brigou com a sua mãe, você fugiu pra casa do seu melhor amigo. O dia em que ele queria cair fora do mundo, ele apareceu pra pedir proteção na sua casa, deitado no seu colo.
Você nunca esquece o dia em que um amigo especial chorou na sua frente por ter tanto pra oferecer e não receber nem um quinto de volta. Você quis ir pessoalmente descer o cacete naqueles que magoaram uma alma tão boa no mundo. Você ri pensando que, há três anos atrás, um nem sabia da existência do outro. Porque hoje ele já é tão grande na sua vida, e tanto, tão plenamente essencial, que parece engraçado viver sem ele. É como viver só porque você respira, e não porque vive realmente. É lindo saber que vocês se conheceram justamente no momento em que ele descobria quem era de verdade - e só você tinha permanecido ao lado dele. Vocês já acharam o máximo ter terminado aquele namoro com classe, e hoje... bem, hoje descobrem que tanto faz. Vocês já quase sentiram o coração arrancado do peito por perderem um amor, e hoje já sabem que dói mas não mata. Vocês já passaram perrengue, já tiveram a pior balada da humanidade no sábado em que só queriam pertencer a alguém, já tiveram a melhor noite do mundo quando jogaram todas as preocupações na pista de dança, já se procuraram por querer contar um segredo que em que só o outro te entenderia para poder ouvir.
Você e seu melhor amigo já ficaram andando na rua de madrugada, já voltaram da balada no dia da votação mal pisando no chão de dor nos pés, já previram que o outro estava com um babaca que não valeria a pena mas do mesmo jeito se consolaram quando você - ou ele - descobriam a babaquice oculta. Vocês nunca se magoaram, nunca brigaram pra valer e têm certeza de presença um do outro em seus futuros. Vocês sabem que é amor mas não precisam falar a todo momento pra entenderem mutuamente. Ele não é igual aos outros. Ele te consola com uma garrafa de vodka e cala pra escutar tuas dores. E quando os dois estão com o peito apertado, cada um fala sua parte meio zumbi em escutar a do outro, mas setindo-se bem só em ter pra quem falar. Só em ter alguém pra confiar. Ele não é igual porque vai a um churrasco horível com você e te faz rir com a idiotice que é abraçar patos. Ele te leva pra praia e acordam cedo pra ver o sol nascer em tons alaranjados enquanto vocês não vêem o sol nascendo. Ele joga frescobol com você de madrugada e te ajuda a domesticar um caramujo o qual apelidam carinhosamente de Garry. Ele não é igual a todo mundo. Ele escreve frases que nos dão ar na areia da praia. Ele contempla os lixeiros recolhendo a sujeira da praia quando era pra ser uma cena de filme e segura sua mão na rua pra nenhum cara te azarar. Ele tenta tirar contigo aquela foto que você tanto queria mas dá errado e vira a foto mais bonita do mundo. Ele é a pessoa mais verdadeira que você conhece. Ele não é mais um no mundo, ele te encoraja a continuar mesmo no aperto porque algo bom virá, e te faz desistir quando sabe que você vai mais sofrer do que ser feliz. Tem gente que apenas vale a pena.
Vale a pena viver pra ver aquele sorriso do seu melhor amigo. Vale a pena falar besteira pra rir da risada dele que você acha engraçada. Vale a pena ele se atrasar no trabalho porque precisava muito te ver antes. Vale a pena encontrar alguém assim no mundo. E se você encontrar, te peço, por favor, tenha sensibilidade. Tenha o tato necessário pra fazer seu amigo feliz e não deixá-lo ir embora. É natural as pessoas se perderem, mas apenas quando não existe mais essência pra amizade prevalecer. E vocês têm essa mágica que faz morrer de rir da desgraça um do outro sendo feliz de verdade por este momento. Não o deixe ir embora, não o perca. Agarre-o como se fosse seu oxigênio pro resto da vida. Certas amizades raras como esta, a gente sabe, foram feitas pra serem eternas.

Clarissa M. Lamega

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Acho que eu nunca senti tanto a sua falta, e eu nunca te deixarei ir. Obrigada por tanta felicidade, tanta piada boba, tantos momentos bons (e também ruins) que você sempre topou dividir comigo. Você é raro no mundo, e vale a pena. Eu sei que será assim pra sempre, e agradeço ter te encontrado!
Douglas Lenon, eu te amo e falo de peito cheio de orgulho...
Esse é meu, inteirinho pra você!
Sinta minhas good vibes de onde você estiver, Cla.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A felicidade reside no cantinho da tua boca


Eu falo é de flores. Não rosas, podem ser aquelas pequenininhas e singelas ao lado do portão da minha casa. Conto devagar pra você como foi que nos conhecemos. Falo de tomar café aninhados no chão da minha casa em reforma. Eu te lembro daquele desenho da rosa vermelha e do pedido cuidadoso para me cativar. Te falo "feliz 2011" sussurrado bem baixinho no pé do seu ouvido. Te lembro da cômica situação do chocolate negado e do banho de chuva quase tomado. Te vejo ocupando todos os espaços do meu peito.Eu falo é de mãos que se procuram, e de mãos que se encaixam - você bem sabe que algumas mãos não foram feitas para se encaixar como as nossas são. Falo de pintarmos as paredes da casa e do coração que eu desenhei na sua camisa, das horas do dia que são poucas pra matar tamanha vontade de nos vermos e nos termos mutuamente. Falo das mãos sujas de tinta que marcaram pra sempre o melhor abraço do mundo nas suas costas. Te conto como é imensa a vontade de te fazer bem. Te dou a chave - da porta lá de casa e do coração - e peço devagarzinho para que fique. Eu prometo, prometo cuidar de você. Então peço baixinho para que esses instantes que eu passo contigo também fiquem, fiquem, fiquem. E que Deus me dê a plenitude que é ver seu sorriso refletido por dentro de mim e te dê a certeza da minha felicidade transparecida pelos meus olhos - que te façam ver o quanto esse seu sorriso é precioso para mim. O quanto é gostoso te cuidar. Que é bom e ligeiramente engraçado saber que eu sou a primeira pessoa que você aninhou no seu colo. E que perceber a importância desse gesto te fez sorrir.
Seguro forte a sua mão, acaricio seu rosto com a mais leve certeza de que Deus me fez te encontrar no meio das milhares de pessoas daquele lugar. Recito um poema qualquer inventado na hora e que te faça rir numa tarde comum.
Roubo as horas do teu dia pra ficar bem perto na grama da pracinha e pra te ver rindo daquelas bobagens que só a gente ri. Repito baixinho pra não sumir da minha vida, te digo como tua alma é bela. Como você ilumina a minha existência. Te observo arrastando os chinelos e tenho vontade de segurar teu rosto só pra dizer como o homem que anda com os chinelos arrastando pela minha casa me faz feliz. Como saber da sua presença no cômodo ao lado me faz fechar os olhos e agradecer sorrindo. Quero mais conversa longa escutando o barulho da chuva, quero mais pedacinhos teus dentro de mim. Quero mais dessa coisa que me faz florescer inteirinha por dentro e chorar por saber como é lindo a gente ter se encontrado. Porque a gente se precisava e se encontrou no meio de tantos desencontros que acontecem por aí todos os dias.
Faço cara de boba apaixonada quando vejo seu sorriso mordendo o lábio e virando o rosto para os lados; incrédulo e de olhos vibrantes pelo susto de ser tão feliz no café da manhã de domingo. Cumprimos a promessa de rezar à mãezinha Maria um pelo outro todos os dias, te ensino a cozinhar e espero o beijinho na ponta do nariz que nunca me falta. Deito de barriga por cima das suas costas, te abraço enquanto você lava a louça e quase sorrio sozinha porque você é meu melhor presente e nem imagina a grandiosidade disso. Te dou um pouquinho de paz quando você deita no meu colo pra ganhar cafuné, te espio contando para o meu pai como foi bom me conhecer. Sinto o arrepio percorrendo o corpo inteiro com a sua barba encostada na minha nuca e rio do seu ciúme bobo querendo me proteger de qualquer ameaça alheia que venha a me assolar por aí. Te abraço forte, reparo na sua paciência sorrateira em me esperar no cabelereiro, te deixo entrar aos pouquinhos na minha vida e perco um pouco do meu ar quando te encontro parado na entrada da minha aula. Repetimos o quanto é engraçado lembrar que um dia mal nos conhecíamos até um olhar de compreensão mútua dar espaço à plenitude complexa que é o momento de duas almas compartilhando o melhor de si. Parece que a gente se conhecia muito antes de se encontrar: já nos amávamos e nós é que ainda não sabíamos disso! Seguro sua mão pra nunca mais soltar. Porque você me faz sorrir e me faz sentir uma leveza estranhamente calma como se tivessem borboletas no meu estômago e como se eu fosse explodir de felicidade a qualquer momento. Meu cheiro tá no seu casaco, teus olhos estão gravados no meu peito.
Eu quero, quero sim que seja você. Peço pra que você fique, já que tem aquele encanto devastador por crianças, para que um dia saiba como serão as nossas. Obrigada por você existir. Te quero, te curto, te cuido. E te amo.




Clarissa M. Lamega
Dedicado à quem tanto anda me fazendo feliz em tão pouco tempo!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Sacrifício


Certa vez li que a palavra sacrifício provém da junção de duas outras palavras: sacro e ofício. Sacríficio é o trabalho sagrado. É dedicar um tempo a lidar com o nosso sagrado, ao que reside no interior, ao que os olhos humanos não sabem ver. O que há de precioso em nós, exige uma pitada de dedicação e amor próprio pra pôr as engrenagens em funcionamento.
Pode ser tentar resgatar uma antiga amizade. Passar a noite acordada rindo com um velho amigo e ganhar olheiras e bocejos de brinde no dia seguinte. Resistir à situação tão mais cômoda do rancor para aprender a perdoar. Aprender coisas novas, e saber que sempre há algo a ensinar. Passar algumas horas do dia refletindo sobre como solucionar um problema antes que este lhe afogue a alma. Sacrifício é arrancar o que dói na marra. É lidar com nossas farpas sem perder o amor, é ter fé quando as certezas já saíram pelo ralo. Sacrifício é resistir a uma tentação que pode acabar mal. É abrir mão do que é bom no plano individual para expandir a graça ao coletivo. É treinar mãos que se tornem fortes para fazer o bem, é mudar, é cortar espinhos da alma. É ter força para deixar o passado no passado, mesmo que ele grite em alto e bom som um pedido de volta. Sacrifício pode ser uma espécie de mudança de casa, mas acontece no coração. É tirar tudo dos armários, jogar sentimentos ruins fora, compartilhar as coisas boas que nos restam, e mudar de ares para começar tudo outra vez. Mesmo que doa partir. Mesmo que deixar o velho para trás seja o maior absurdo em que já pensamos, isso é um trabalho sagrado. E quando a casa, o coração parece vazio, na realidade ainda permanece cheio de fé.
Sacrifício é se resguardar. É evitar a obviedade do sentimento e chiar no ouvido do coração para acalmá-lo. É não saber notícias, se está bem ou se sentiu saudade por pura proteção própria. É evitar a voz, a lembrança do perfume, da maneira de andar e de olhar. É desejar o sorriso milimetricamente perfeito à quilômetros de distância, é rezar por não ter nenhuma mensagem nova no celular. É torcer para ter distração suficiente para o dia inteiro, a noite inteira e algumas semanas inteiras para não largar tudo pela gargalhada mais gostosa do planeta. Sacrifício é entender que sempre vai doer, mas que com o passar dos dias dói cada vez menos. E que ao nosso lado existem pessoas capazes de nos dar momentos de pequenas alegrias perfeitas feitas para serem recordadas. Sacrifício pode ser não dar as caras, não querer pensar, e principalmente saber a hora de parar. É segurar os dedos que deslizam nas teclas do celular para não discar aquele número. É sentir cada vez maior o buraco engolidor da distância e se privar das melhores palavras do mundo por querer bem a si mesmo, e ao outro. É aguentar firme quando a saudade aperta. Sacrifício é fingir frieza por medo de ter excesso de amor. É entender que o melhor é parar para não machucar. É por um ponto final quando a única coisa que mais se quer é a existência de uma vírgula.
Sacrifício é entender, é limpar os cacos da discussão, é limpar a ferida mesmo que isso arda na pele. É se sujeitar à mudança, ao amadurecimento e à aceitação de que infelizmente, também erramos. É ter humildade suficiente para apontar para dentro de si ao invés de apontar para quem está ao nosso lado. É se doar, doar seu tempo, suas palavras, seu abraço e seu afeto a quem precisa - mesmo este alguém seja você mesmo. Sacrifício é reconhecer nossa humanidade, é se render ao choro quando o aperto começa a tirar o ar dos pulmões. É parar de sentar em cima dos erros e de tudo aquilo que é incômodo para tranformar em aprendizado. É querer abrir os olhos, querer tranformar, entender que mesmo que não aparente, sempre sobram forças pra lutar. É saber que quando se triplicam nossos problemas, Deus tem a cuidadosa sutileza de triplicar também nossas forças. Sacrifício é remar, é querer, é agir. É se doer, é chorar abraçando as pernas ou na hora de dormir, é cultuar a tristeza como parte de um processo de evolução pessoal. Sacrifício é se dedicar um tempo livre para dançar, para escrever ou fazer um bolo. É amordaçar quem tenta te morder, é se fazer um carinho porque só nos é que podemos cuidar do nosso sagrado. É amar, é partir, é ficar do lado de quem quer que você fique, é viver. É fazer um esforço para entender que mesmo quem te quer por perto poderá te machucar por não saber como agir. E entender que algumas pessoas não sabem o que querem cultivar em você, e que o não saber corrói com o tempo. É preciso perdoá-las porque todos nós temos falhas. Sacrifício é correr pra longe para fazer a coisa "certa" quando errar a dois é o que mais nos fascina.
Sacrifício é trabalhar com o que nos é sagrado. É cuidar da mente e do coração, e de tudo que está envolvido neste plano. Sacrifício é batalhar pelo que nos dá gosto à vida - e saber que nesse plano não se inclui nada material. É sonhar, é cativar, é rir, é chorar, é reconhecer-se humano. Nem melhor, nem pior: simplesmente humano. O trabalho sagrado começa dentro do coração, no peito, aonde o sangue explode para todo o resto do corpo e isso nos faz sentir vivos. Acredite no que te é sagrado. Sacrifique seu tempo pelo que realmente vale a pena nesse mundo, já que todo o resto, um dia, vai virar pó.

Clarissa M. Lamega


Ps. Perdoem as ausências, anda fatando tempo para postar no blog. ;)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Palavras Azuis

Hoje, venho por meio desta com um propósito especial: dar um pouco de voz a uma pessoa de sentimentos muito nobres e bonitos, que se percebem em suas palavras e maneira de escrever. Essa garota chamada Sarah Habash obviamente tem uma voz que grita, que nos deixa inquietos pensando "meu Deus, que texto mais lindo!". E não é puxa-saquismo barato, não! Ela escreve de um jeito incrivelmente doce e sincero, escreve com o coração. Minha missão pessoal que eu mesma me impûs é de apresentá-la à vocês, e bem.. aí quem decide se encantou-se ou não por essa mocinha de Goiás são vocês. De minha parte, adorei tudo o que ela escreve, é intenso e puro. Aqui vai uma lasquinha pra quem ficou curioso:

"Entrelaçou seus braços em meu corpo e mostrou-me seu pulso. Eu vi o relógio, os segundos passavam tão calmos, talvez pelo valor enorme que eles representavam por estarmos tão juntos naquele momento.
Enfim, eu só queria ter a chance de encontrar uma palavra nesse meu garimpo, que significasse e nela estivesse contido todo esse sentimento que de mim é oferecido a ti. E mesmo não a encontrando, sei que essas aqui juntas já significam alguma coisa. De qualquer forma, desculpe-me por esses cascalhos. Você sabe, o tesouro mesmo, cheio das pedras preciosas, só consigo encontrar (e te dar) quando estou perto de você."

Simplesmente lindo, não? E ela escreve bem do jeito que eu gosto: profundo. E quem quiser acompanhar a Sarah, pode acessar seu blog e ficar mais à vontade com suas "palavras azuis", através do link http://bluewordshabash.blogspot.com/ . Como o blog é beeeem recente e foi feito há alguns dias, ainda não possui um grande número de textos, mas garanto que com os dias essa garota ainda vai fazer muita gente suspirar na frente do computador. Desafio lançado, vamos ver quem mais se encanta com a Sarah (além de mim, claro!).

Um beijão, e obrigada, acima de tudo, a quem me acompanha e lê meu blog. ;)

Clarissa Lamega.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Verdade não-dita

Imagem: Anna Gatilo


Porque para mim sempre foi oito ou oitocentos, eu queria explicar. Porque sou extremista por natureza e ando fazendo uma força excepcional e sobrenatural pra não ir embora para sempre. Porque hoje me deu uma vontade louca de fugir de tudo isso tão nosso que ninguém mais pode dar e começar uma coisa nova. Mas nada. Olho para seus olhos meio tristes e o sorriso meia-boca conformado (seu, inteiramente seu) e dou o pior dos meus piores sorrisos. O sorriso que cala ao sentir a vontade consumista de gritar. E é só isso, nesses dois minutos parados. Nesse tempo em que estamos nos olhando como se tivéssemos algo nas mãos, e fôssemos totalmente responsáveis por isso que queremos jogar em qualquer canto e fingir que nunca existiu. E seguramos juntos toda essa manta que tecemos de mãos próprias para nos escondermos da rotina e que agora só consigo pensar em queimar. Em dar embora, jogar em qualquer latão na rua e correr.
Porque eu não sei conviver com a idéia do não-ter, é o que se passa na minha cabeça de quem pensa que viveu 17 anos em 127 dias. E de quem já cansou de tanto querer pessoas inatingíveis. Alguém me explica como parar de querer? E olha, isso é um saco, deixo também de dizer quando o que transparece nos olhos simplifica. Um suspiro imenso pra arrancar todo o ar do peito, daqueles mais fundos que se pode dar, tentando expulsar tudo o que ficou de você aqui dentro. Porque, que droga, eu não quero mais. Porque eu não sei fingir e sou só a doida de pedra que fala tudo o que pensa mas que cala quando vê seus olhos de tristeza. Que desiste só porque dói abandonar os olhos dotados da capacidade de me fazer largar todas as armas e auto-defesas de que preciso pra ser corajosa - pra ser eu mesma. E só fica o choro baixinho no escuro que ninguém vê e a vontade de se mudar para o Alasca. A falta é uma péssima companhia pra mim e o conformismo enfiado recentemente na minha cabeça é o que mais me deu medo até agora, em toda a minha vida. Você entende? Não, você não entende. Você é só o cara que gosta de me contrariar e que acha os fins as coisas mais normais do mundo. Não esse fim. Não o fim que poderia não ser o fim, compreende? Sem chances de eu tentar te explicar.
Afinal eu sou só a que tem vontade de correr mil e quinhentos quilômetros com a pseudo certeza de que esse tipo de pensamento jamais me seguiria. A que tem vontade de sumir, de se tornar invisível e voltar e recomeçar e inventar. A que adora sentar em cima das coisas que dão errado e ter pequenos surtos de amnésia só para recomeçar sentindo que, dessa vez, tudo dará certo. A que não sabe fingir, que não sabe mentir, que não faz social e nem pose de madame, a que não tem medo de mostrar quem é. Nem que isso afaste todos os seres vivos do planeta de perto de mim. E por incrível que pareça, o que mais me dá medo é querer deixar as coisas como estão entre a gente. Brincar como se isso não me matasse um pouquinho por dentro. Concordar com tudo num 'fazer-o-quê?' sempre mal-estruturado. Não, nao sou eu. Quem é essa estranha que te quer por perto mesmo com suas palavras mornas que nada amenisam o susto de perder? Quem é essa que tomou meu lugar, que acredita que o que vier é bom, que tudo isso é uma maravilha do jeito que está? Cadê eu nessa história?
Eu tô segurando o que construímos com as duas mãos e te olhando nos olhos como tarefa árdua. E você segura a outra ponta já esperando meu surto pré-determinado de ir embora com aquele sorriso que bem conheço de achar tudo sempre legal, tudo sempre bom como está. E eu quero gritar no seu ouvido que não tá legal, que nada disso pode ficar assim, e que eu jamais vou ser aquela que aceita tudo o que a vida joga no meu prato. A que não engole o que vier, a que reclama das coisas fúteis e de pessoas que mantêm o sorriso do 'fazer-o-quê?' entre as orelhas. E me dá a vontade de te sacudir e te mandar jamais ser morno de novo, jamais não esperar mais nada dos seus dias, jamais me deixar ir embora do jeito que eu tô querendo ir nesse exato momento. E como um boneco, uma estátua, você continua parado com olhos de ressaca e com toda essa coisa que jamais será amor e jamais será amizade nas suas mãos como se o tempo desse um desfecho perfeito em tudo. Chega! Eu quero ir embora! Eu sou intensa, sou maluca, e a única maneira que conheço de viver é sentindo como golpes todos os sentimentos de cuidado, carinho ou proteção que atiram contra mim. Ou eu amo e sinto, ou não me importa e não sinto. Mas morno é o que mata, ficar parada é o que destrói. Esperar eu não sei fazer, e não há santo que me ensine. Não peço mais nada, não cobro mais nada, não espero mais nenhum ato ou palavra de salvação pra gente. E essa é a parte de mim que desconheço. Conviver com uma estranha dentro de mim é trezentas vezes pior do que conviver com a sua mansidão diante da vida. E tudo isso é sobre mim, não sobre você.

Clarissa M. Lamega

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Nas ondas do teu mar


Sabe aquela onda gigantesca e avassaladora que te dá um caldo na praia toda vez que você se atreve a encarar o mar? De nariz empinado, vai pulando as ondinhas toda serelepe até encontrar aquela de dois metros e meio que te faz rolar, tira seu biquíni do lugar e ainda por cima acaba com a sua pose de boazuda. É, nos últimos meses eu venho sendo afogada por essa maré de desespero com espumas de histeria que você é. E sempre que me sinto na maior, com o controle da situação, tua força imensa arrasta minhas pernas do lugar pra me mostrar mais uma vez o quanto eu fico fraca, burra e carente perto do seu sorriso incerto. É sempre a ladainha do querer-e-não-poder e do psicopensamento tô-nem-aí-pra-você, e você com cara de tacho demonstrando o quanto pode ser idiota, o quanto se engana com o que pensa querer e na verdade não quer. Pô, até eu sei que você não quer inisistir nisso. Até a louca, desvairada, carente e obsessiva por orkut da ex e por colo sabe que não vai dar certo. Será que, além de repetir cento e cinquenta vez 'não vai dar certo' pra mim mesma em pensamentos frágeis todos os dias, eu preciso gritar isso pra você também? E agora, dá pra você parar de ser o maremoto e se tornar uma daquelas ondinhas inofensivas de beira de praia? Eu tô tentando, pô. Colabora pra eu ter uma repentina amnésia amorosa.
Você é a onda de calor, a maré do afeto, o tsunami que não deixa sobrevieventes pelo caminho. Você é a água geladinha que dá só pra molhar os pés, porque a água na cintura já se torna perigosa. Suas mãos na minha cintura se tornam perigosas. E como um barquinho na tempestade, imersa em teus olhos, me deixo afundar. Em transe, em estado de anomalia, maluquinha da silva, te busco. E te procuro em lugares em comum, nas ruas da cidade, na tua voz chamando meu nome. Te espero na porta lá de casa, e ainda digo "vamos lá, pode entrar, ondinha". Mas você não é onda, você é gigante e forte feito maremoto. Você não entra: invade. Invade a casa, o pensamento, a razão, o coração. Até tudo ficar imerso no teu mar, até eu querer me perder pra sempre no cantinho do seu sorriso safado. E lá vem você de novo me chamando pra bater um papo comum pra saber como eu tô. Pra descobrir se você ainda tem o poder sobenatural de arrancar meu medo, de me fazer andar aos pulinhos e te querer muito. E te querer sempre. E sentir falta do seu cabelo bagunçado, das suas mãos desajeitadas e dos olhos analíticos super curiosos a me observar. Sim, você consegue fazer isso. Um aviso, então: não precisa mais tentar, você já sabe que dará certo.
E em todas as vezes você me fez feliz. Em todos os momentos, aquele carinho nas costas e o cheirinho no pescoço se sentiram dignos de serem exibidos mundo afora. Eu, com sorriso quilométrico de orelha a orelha, mergulhando no tsuname como patinha boba. Levando os maiores caldos da história da humanidade, me afogando um pouquinho mais a cada dia na tua água, e sempre à postos quando ouço tua voz me chamando. E eu te juro que nesses dias todos a única coisa que eu mais queria era ser menos sensível com você, e mais sensível comigo. Fugir dos teus braços como se foge de macumba, fugir da perdição da tua boca pra afastar toda a ressaca do dia seguinte. Sair daqui sem me embolar no arrastão que você faz dentro de mim, sem levar pedaços meus a cada baque mais forte das tuas ondas no meu peito. Mas colabora, vai, queridinho. Tá chegando o fim do ano, a época de pular as sete ondinhas e de fazer um pedido a cada onda. Me deixa pular a sua também, transpassar e fazê-la ir embora. Me deixe passar ilesa por ela, pra que na virada do ano um dos meus pedidos não seja te ter novamente. Colabora, deixa eu ser corajosa, deixar pra trás, e seguir em frente. Mais ondas virão, eu tenho certeza. Então deixe de ser tempestade, e me ajude a fazer do maremoto uma onda sutil. Tudo o que dói, dói porque é capaz de mexer lá no fundo da gente. Que você se torne arredio e escorra como água nos dedos, pra enfim me fazer desistir de te segurar. E que você também não sinta mais falta da minha preocupação persistente pra que você seja feliz. Que meu pedido nesse novo ano seja pra que as águas se renovem numa paz plena de felicidade. Me deseje coisas boas também: Deus me emprestará Seus olhos pra te vigiar e me contar se você está sorrindo da maneira que prometeu, pra eu poder seguir em frente. Sem culpa.



Clarissa M. Lamega

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Deixa, deixa ir


Guarda um segredo: às vezes, é preciso se desprender do que deseja para descobrir o que merece. - Renata Carneiro


Como se aprende a se conformar com as coisas? É isso, só isso que eu preciso saber. Não sei aceitar, não entrego uma luta de bandeja e muito menos finjo estar tudo bem - eu não sei fingir. Não sei como dizer "olha, eu quero muito, muito, muito, mas...". O "mas" é o que me horroriza. Para mim, não existem "mas", e se eu realmente quero, me sinto digna da tentativa até não restar nenhum farelo de chance. Como deixar ir embora sem levar junto um pedaço a cada olhar, a cada letra de música, a cada palavra, a cada vontade engasgada? Pois eu, eu só penso em você.
Não se deixe levar assim, não. Olha, veja bem dentro dos meus olhos aquela que surta por medo de que acabe tudo agora, mas que ao mesmo tempo cala por medo de que nada acabe e que o que continue seja doloroso para os dois. Segura a minha mão, ó. Veja como ela fica firme quando tem a sua junto dela. Veja como eu sorrio, como eu abaixo a cabeça pensando que você é, ao mesmo tempo, a melhor e a pior coisa que poderia me acontecer agora. Escute meus adjetivos estúpidos de "idiota, tosco, retardado", e repare que por trás deles existe um tom meio melodramático de "te quero sempre, sempre bem". Olho para o seu cabelo meio sem sal, a sua indecisão atrevida e angustiante, sua maneira de não dizer nada até o sufoco pregar uma peça e se ver obrigado a confessar tudo - que não dá pra ficar longe, que com a voz perto do ouvido, um olho-no-olho e uma mão disfarçada na perna fica cada vez melhor - e penso que nunca mais quero desistir de você. Volto para casa com o coração latejando e ardendo, e me sentindo tão, mas tão grande que mal poderia passar pela porta. Que seguiria meio em transe até o quarto para ouvir a mesma música que, desafinado, você cantava baixinho. E sinto um peso tão grande no peito por ter que largar tudo isso, por ter que desistir do que tira o fôlego mas que também traz uma maré de borboletas no estômago.
Como deixar seguir, tocar o barquinho sem ter vontade de se jogar no mar? Como não ser louca quando é você quem me olha bem dentro dos olhos e me sorri daquela maneira que me deixa constrangida? Como se conformar em fazer voarem pra longe suas piadas sem graça que só você ri? "Vai, minha filha, deixa ir embora", me ordeno olhando no espelho pra ver se aprendo a ser gente normal que sabe a hora de trancar a porta. De parar. Pra ver se aprendo a não esperar mais nenhuma mensagem à noite, não esperar nenhum sinal de vida, não querer escutar nenhuma palavra a mais. Pra comprovar que sou forte e que a falta é passageira. Eu sou forte, eu sei, eu sei. Vai ver é por isso que me torturo tanto: já sei que sou forte feito pedra, mas quero ser molinha feito o colchão da sua cama. Queria ceder, sentir o mix que é sofrer e amar, sem me privar tanto de ouvir tua voz. Mas não, não dá. "Todos os seus amigos estão esperando e torcendo pra que você seja durona, pra que supere numa boa, pra que eles não precisem mais escutar a mesma conversa sobre os dias em que ele aparece e te deixa com o coração na mão", diz a vozinha irritante na minha cabeça. Então é isso ser forte? Deixar de buscar aquilo que mais me faz amar a vida porque também é o que mais me faz perder o ar? Ora, me poupe, racionalidade do caramba! Vá pastar. Não é do meu caráter deixar coisas boas irem embora. E te juro, que a minha vontade era segurar seu rosto, cara, olhar pra você e dizer bem devagar que... O que, vozinha? Não falar pra ele faz parte do processo mesmo? Ah tá, então deixa pra lá. Difícil ser forte.


Clarissa M. Lamega

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Não vou mais escrever sobre amor


Eu me decidi a parar de escrever sobre amor, porque se eu não parar de escrever eu não conseguirei parar de desejar que a gente dê certo. Não, não vai dar. Não vou escrever sobre amor porque tô é cansada de chorar e preciso celebrar ao mínimo uma - das tantas - coisas que eu sei que são preciosas nessa vida. Certa vez li em algum canto da internet (perdoem a minha falta de memória, mas não sei aonde foi) um texto que dizia que certa pessoa escrevia tanto a palavra "amor" que essas letras de seu teclado estavam meio apagadas. Então eu olhei para o meu teclado e vi. Também estavam. Aí eu chorei. Mas não foi tristeza, foi uma certa emoção porque era a prova material que minha humanidade aflorava aos montes, explodia dentro e fora de mim. A alegria de saber-se viva.
Só quem chora pode constatar que vive. Só quem ama, quem distribui afetos, quem abraça, quem ri. Se você não se lembra qual foi o último abraço que deu, a coisa tá feia, meu amigo. E tudo isso é amor. Tá legal, eu disse que não ia escrever sobre amor. Mas o que mais vale a pena no mundo do que amar? O que mais nos faz pensar que valha a pena enfrentar o trabalho cansativo, os ônibus cheios, os dias tortuosos? A certeza de que não estamos sozinhos nessa. Não vou falar sobre amor - não sobre o nosso amor, mas sim sobre aquele amor pela vida. Aquele que me faz levantar todo dia de manhã. O amor que me faz sorrir ao pensar que não existem amigos mais engraçados, insanos, alegres, companheiros e lindos que os meus. O amor que me faz pensar que as coisas ruins do agora ao menos deixam como legado a experiência, e a certeza de que tudo passa. Tudo vira poeira, tudo vira pó, e o que parecia um abismo que dividia a Terra em duas - o seu lado e o do resto da população - daqui a pouco não passará de motivo de riso. O amor que deixa claro que por mais que as feridas cicatrizem, ainda doerá se você se atrever a cutucá-las - porque somos feitos de carne e osso, não há modo de nos livrarmos do que alcança nosso mais íntimo sem marcas. O amor pela vida que me dá a certeza de que sempre vale a pena, por mais que doa continuar. O amor que é o que me reafirma, ao chegar em casa, que minha família é insubstituível, que até aqueles defeitinhos bárbaros são o que tornam cada membro dela único - e que fazem falta. É o amor que faz a gente se debulhar em lágrimas, mas é também o que nos lembra que há muito para se ver, que não será nem a primeira e nem a última vez. E que faz, então, renascer uma fé e uma força inigualáveis de dentro do peito, levantar, sacudir a poeira e seguir em frente. São só a companhia de quem a gente gosta aliada às brigas meio bobas e instantaneamente perdoadas que explicam tanto amor. Se você atura muita mesquinhez de algum amigo, mas ri e perdoa, tenha certeza que a amizade será longa e cheia de histórias.
Eu amo, amo muito. Amo a balada com as amigas tanto quanto amo o apoio recíproco quando as coisas vão mal. Amo a dor compartilhada para não pesar muito pra ninguém assim como amo as risadas sobre as piadas daquele amigo que só a gente ri (piores piadas impossível). Amo dançar jogando os cabelos, aproveitar a festa como se fosse a última da minha vida e amo ver minha mãe se divertindo comigo como se tivesse 17 anos. Amo cantar Cazuza e Nando Reis, amo andar pela casa de camiseta e calcinha e amo chorar quando a saudade aperta. Amo reencontrar amigas de longa data, amo demonstrar meu afeto pelas pessoas que, a meu ver, são as mais queridas do mundo, amo tudo o que faz rir. Amo as piadinhas que só eu e meus amigos entendemos, amo dar apelidos secretos, amo sorvete num dia muito quente e café todos os dias de manhã. Amo sentar na minha cama sozinha e destrinchar as palavras de Clarice Lispector, abrir o coração para Caio Fernando Abreu, me interiorizar com Martha Medeiros e sentir na pele com Tati Bernardi. Amo agradecer a Deus por cada dia a mais, por cada pequena felicidade conquistada, pelos erros que deixam de herança lições e amo capturar cada sinal divino do caminho a traçar como se ewscolhem estrelas no céu - e cruzar os dedos acreditando que escolhi o certo. Amo ter a certeza de que tenho amigos fiéis e companheiros, amo fazer alguém rir, amo doar meu tempo a quem precisa.
Canto como Cazuza cantava, dizendo que queria "todo o amor que houver nessa vida". Porque eu sou feita de amor da cabeça aos pés, respiro amor, vivo por amor. Amo a vida, amo tanto que as letras dessa palavra aguda "amor" já nem existem mais no meu teclado de tão desgastadas depois desse texto. Não, seu bobo, não é o seu amor que me preenche, ouviu? Seu amor é só uma imensa parte do tanto que é meu coração - e mesmo assim sobra muito mais. E posso sim, dizer que amo tanto que uma hora vou me explodir em amor e fazer voarem pedaços de carinhos por todos os lados. O meu medo é saber que amo tanto, mas tanto, que sabe Deus o que os olhares cobiçosos e alheios podem fazer com a melhor parte de mim. Continuarei sentindo, persistindo, acreditando. Sou apaixonanda, eternamente apaixonada pelas coisas simples e insubstituíveis da vida. A chave de ouro de toda essa história é Oswaldo Montenegro quem dita, e faço minhas as suas palavras:
"E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade... também.".


Clarissa M. Lamega

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Minha dor é a pior



Amar dói tanto que você fica humilde e olha de verdade para o mundo, mas ao mesmo tempo fica gigante e sente a dor da humanidade inteira. - Tati Bernardi

C
horo mesmo, me descabelo pra caramba, queimo meus neurônios com probabilidades mil acerca de nós, e deixo todo mundo ver. Me exponho aqui, coloco minha cara a tapa, e que atire a primeira pedra quem nunca teve um choro meio ridículo por amor. Me abro, arreganho meu coração à fórceps, deixo a mostra minha dor e ainda cutuco com um pauzinho quando escrevo sobre tudo o que sinto. E todo mundo vê, alguns se doem junto comigo, outros se recordam como é a dor de amor. Essa dor de não se importar consigo mesmo e se deixar a Deus dará só porque parece tão mais importante se o outro está sofrendo também. Me poupe! "Acorda, menina", repito para mim mesma. "Ele não está aqui para cuidar de você!". Sou eu, eu mesma e meu amor que lateja no peito nesse deserto imenso que parece o mundo.
Sendo bem egoísta, ainda pensamos que ninguém sente igual, que a dor é só nossa. Minha dor é a pior das piores do mundo - e não discorde! Eu te amo. Caramba, eu te amo. Tô ferrada. Eu sei, meus amigos sabem, a vizinha da frente sabe, minha mãe sabe, meu travesseiro sabe, vocês sabem, todo mundo sabe - menos você. Tenho coragem suficiente pra contar pra todo o planeta, mas pra você meço meia dúzia de palavras repensadas cinco vezes e já basta. Não me entrego. Só essas palavrinhas já são capazes de me doer por três dias e revirar o estômago num looping. Porque expor a você minhas dores é cutucar a ferida do coração com pauzinho. Mas parece dez vezes mais doloroso quando é pra você que falo. Quando é com você, parece que o tal pauzinho ainda tem um monte de pontas que ardem no peito e tiram meu ar. Tudo parece pior.
A idéia de deixar você saber que ainda me dói é terrivelmente amarga e assustadora. Prefiro revelar para 100 pessoas anônimas aqui do que falar pra você. E acredite, tudo o que eu queria era te contar que ouvir seu nome ainda me causa arrepios pelo corpo todo. Que olhar tua foto ainda me dá um leve embrulho no estômago. Que eu quis chorar por ter ficado feliz de saber que você lembrou de mim naquele dia. Que tem um nó na minha garganta brotando em cada lembrança gostosa sua. Que às vezes eu sufoco um choro baixinho no chuveiro. Que fiz uma força tremenda pra sorrir ao invés de sair correndo quando vi sua amiga na rua. Tudo, tudo o que eu queria conseguir dizer é isso: eu te amo.
Sou péssima em atuação, e por isso mesmo escrevo. Não sei fingir que estou totalmente bem e limpa. Com dor, muita dor, me afasto pra disfarçar. Finjo que esqueci, que não tô nem aí se não vou mais te ver. Nem por acaso, se meu santo for forte. Bate o desespero: eu não vou mais te ver. Caramba, tô expulsando da minha vida a pessoa mais especial e carinhosa que me apareceu! Não vou mais te ver. Estou te expulsando a socos, junto com a minha dor. Engolindo sapos, perdendo ciente da perda - e acho que é o que mais incomoda nisso tudo. A perda, a ausência, o vazio. O desamor deixa mais feridos que o amor, o vazio se torna pior que o sofrimento. Eu sei que, daqui a pouco, dentro do coração vai fazer até eco.
Faço a desinteressada, enquanto fuço seu orkut a cada dez minutos. Finjo ignorar, enquanto acompanho cada passo teu. Sorrio, enquanto tudo dói. É difícil ser humano, porque quando atingimos o ápice da humanidade é no momento em que doemos. Na dor, tornamo-nos humildes. Afundando na minha dor, preciso finjir tranqülidade mesmo quando quero fugir. Preciso te fazer acreditar que estou completamente bem enquanto estou no chão com o bendito do pauzinho cutucando meu coração. É exatamente isso: humildade. Reconhecimento das minhas fraquezas. E eu aqui tão boba, me doendo inteira por dentro e só desejando a sua felicidade. Que inferno ser humana! Inferno ser eu, me importar tanto com você, ser essa que mesmo de longe ainda anseia por notícias. Que doa, então. Que doa, doa, doa. E que passe. Quero acreditar que assim como os relacionamentos, nenhuma dor é eterna. E essa parte você pode anotar.

Clarissa M. Lamega

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A carta que ela não mandou




Meu amor,

sei que te assusta, depois de meses, receber assim em tuas mãos esta carta redigida corajosamente pelas minhas. Escrevo, penso eu, para cuidar de você e de mim. Já fazem alguns dias desde nossa despedida, que demoram tanto a passar como o vazio que ficou aqui dentro. E o que eu queria te dizer é que sinto muito a tua falta. Olha: não existia poesia maior no mundo do que teu riso desarmado e doce diante do meu mau-humor falsamente forjado. Não existia nada mais alucinógeno do que teus braços me apertando forte e minha mesquinhez sendo embalada pelo som da sua risada avassaladora no sofá da sala. Dói constatar que a risada e os abraços ficaram, enfim, para trás.
Dos amores que provei, nenhunzinho sequer conseguia me fazer borbulhar o coração como o teu fez. Somente diante da tua voz que eu tremia na base, e só o teu afago enlouquecia meus neurônios. Nenhum outro foi capaz de fazer uma carinha engraçada e fofa pra me fazer rir. E eu sentia raiva, muita raiva de você conseguir me desarmar sem nem precisar abrir a boca. Bastavam teus olhos repousando suavemente nos meus pra me dar vontade de largar tudo e fugir contigo. Bastavam cinco minutos de conversa boba para eu me encantar ao ponto de pensar que não existia nada melhor no mundo. Bastava tuas mãos acariciando minhas costas para eu nunca mais querer levantar daquela cama macia. E é por isso que eu te odeio tanto, que eu acumulava uma raiva cômica dentro do peito: por saber que nenhum outro é capaz de despertar sentimentos absurdamente lindos dentro de mim - que antes de você, eu nem suspeitava que existiam.
Dói olhar para o canto do quarto e não encontrar sua blusa jogada. Dói aspirar insistentemente a manta da cama que você adorava em busca de resquícios de você e descobrir que não sobrou nada. Dói olhar pra dentro de mim e ver o tanto que você levou. Tudo que te cabia no coração, você levou contigo. Encheu tuas mãos com bons sentimentos e guardou-os nos bolsos: foi tudo contigo. Dói lembrar da mordida e não ter ficado nem uma marquinha, lembrar do perfume e não saber mais aonde achar. Dói vasculhar a casa em busca de qualquer coisa esquecida. Vasculhar os cantos do coração tentando expulsar tudo o que de seu tenha ficado, tentar respirar fundo e arejar, varrer as angústias pra lixeira. Mas, teimosas que são, não vão embora de jeito nenhum e me acompanham por todas as horas do meu dia. E saber que fica esse nó na garganta que ninguém tira. Esse sentimento de perda do peito que ninguém arranca.
Sinto tanto a tua falta que por vezes abro a agenda do celular e fico olhando seu nome listado como se assim você pudesse sentir inconscientemente que penso em você com carinho. De maneira telepática, sentir o peito arder de saudade junto com o meu. Apaguei tudo o que fosse teu do celular, dos e-mails, só fica essa angústia apertada no coração que não vai embora nunca. Qualquer coisa que me lembre de ti me força a segurar uma lágrima enrustida pronta pra rolar a qualquer momento. Qualquer cheiro parecido com o teu faz tremer a voz. Todas as vezes em que fantasio te ver andando na rua sinto um desespero tão grande como uma crise abstêmica. A saudade pulsa, a vontade de te ter mais perto escorre dos olhos. O choro baixinho no travesseiro me denuncia, os olhos inchados no dia seguinte traem a minha falsa superação bem-sucedida. O sentimento enorme por ti esmaga o peito, tira o ar e o pouco de sanidade que ainda me resta. Sinto tua falta.
Sinto tanta vontade de te ver que espero você descer do ônibus que vai para sua casa toda vez que coloco os pés naquele terminal. E quando vejo que não está lá, quase subo no ônibus rumo à sua rua pra tentar jogar lá todos os restos de você que sobraram em mim. Por vezes me dá uma vontade irremediável de te ligar e confessar: "Olha, cara, eu era muito feliz com você. Era tão, tão feliz, e agora não sei aonde diabos se escondeu a minha vontade de viver achando tudo absurdamente bonito." E querer ficar horas no telefone, mas apenas calando a voz pirada da minha cabeça que me manda te procurar. E pisando no meu coração que insiste em querer bater mais rápido quando se lembra das coisas que você me disse. Mas o que eu queria mesmo te explicar com tudo isso é que tá difícil viver sem você aqui, me apoiando e dando força. Tá difícil encarar o dia sem saber que não vai ter sua risada escancarada no meio, que o cafuné ficou pra trás, que não existe mais uma mão pra segurar. Anda meio duro aprender a continuar sem desejar tanto o teu abraço. E no fundo, eu queria que você sentisse minha falta tanto assim também. Mas sei que as coisas não são dessa maneira, e que eu sempre fui mais profunda e intensa. Acabo pagando o pato por isso também.
Mas desejo que, mesmo longe, você continue sorrindo muito. Que muitos tenham o prazer da sua conversa boba que eu fui forçada a abrir mão. Que eu aprenda a sufocar a saudade até ela deixar de ser saudade. Que quando meu telefone tocar eu não espere mais que seja você. Tudo isso para o meu bem, e para o nosso bem. E que você esteja bem, esteja feliz, fazendo o que gosta e pensando de leve em mim. Deus, como anda difícil esbanjar sorrisos por aí fingindo que nada me mata por dentro. Rezo pra que passe logo, e que só fique a vontade de querer cuidar melhor de mim - perdão pelo egoísmo, mas bem sabemos que esgotei todas as minhas energias cuidando de ti. Eu te amo, e precisava dizer que minha ausência se deve a motivos de cuidado pessoal, sem resquício de mágoas ou dor. Que o tempo alivie, enfim, a falta de ar que não me deixa respirar e ser inteira em nada.

Te escrevo com dor, e pressentimentos de que tudo há de melhorar
Da sempre sua.


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Clarissa M. Lamega
 
Só enquanto eu respirar. Design by Exotic Mommie. Illustraion By DaPino