quinta-feira, 28 de outubro de 2010


"A vida é como uma caixa de lápis de cor. Deus nos dá caixas com quatro, oito, 12, 24 ou com 36 cores. Não importa se você recebe uma com quatro ou com 36. Você tem que fazer o melhor com o que Deus dá. Independente de quantas cores tenha na sua caixa."


Do filme Waking life, dirigido por Richard Linklater (in GO - Nick Farewell)


"You say that you love rain,
but you open your umbrella when it rains...
You say that you love the sun,
but you find a shadow spot when the sun shines...
You say that you love the wind,
But you close your windows when wind blows...
This is why I am afraid;
You say that you love me too..."


Willian Shakespeare

terça-feira, 26 de outubro de 2010




" Que me desculpem os apáticos,
Não tenho medo de sentir.
Eu sinto muito..."

Ana Jácomo

"No final do dia, a fé é uma coisa engraçada. Ela aparece quando você não a espera. É como se um dia você percebesse que o conto de fadas pode ser levemente diferente do que você sonhou. O castelo... bem, pode não ser bem um castelo. E não é tão importante que seja feliz para sempre, apenas que seja feliz agora. Veja, de vez em quando, muito raramente, as pessoas irão te surpreender. E de vez em quando, vão tirar o seu fôlego."


Grey's Anatomy

"Algumas vezes a realidade tem caminhos para despertar e nos morder o traseiro. E quando este queima, tudo o que se pode fazer é nadar. O mundo pretende ser uma caixa, não um casulo. Sozinhos podemos mentir à nós mesmos por muito tempo. Estamos cansados. Estamos assustados. Negando, não trocaremos a verdade. Cedo ou tarde teremos que pôr de lado nossa negação e encarar o mundo com a cabeça fria. Negação. Não é o justo rio do Egito. É o maldito oceano. Então, como nos salvamos de nos afogar?"


Grey's Anatomy

domingo, 24 de outubro de 2010

A risada


A risada. O que me pegou foi a risada. Ela é única, e sincera. Acho que em todas as vezes, eu a ouvi com o coração aberto, e talvez por isso seja tão bonita. É assim: ele começa a rir alto, e vai fechando os olhos devagarinho enquanto joga a cabeça para trás. E mal desconfiava enquanto eu ria junto, nem que eu não achasse graça. Eu ria só porque achava tão lindo alguém rir dessa forma tão espontânea, tão singular como era a dele. E a voz das gargalhadas só me deixava pensar "meu Deus, que delícia saber que eu tenho ele na minha vida. Não me deixe nunca perder essa risada de vista". Então ele ia voltando a cabeça para frente e olhava bem dentro dos meus olhos, com o rosto ainda todo vermelho e achando a maior alegria em coisas idiotas que não tinham a menor graça. "O que tinha graça era a risada", eu queria explicar. "O que me fazia rir era ver você sorrindo daquela maneira tão honesta", era o que eu sempre quis lhe dizer. Mas aí ele ia perder o riso e ficar com vergonha de alguém louca como eu amar tanto aquela risada. Eu nunca disse, mas o que me pegou foi a risada.
Eu queria tirar uma foto naquela hora, e emoldurar pra colocar na parede do meu quarto. Ou melhor: queria poder filmar escondido o barulho alto, que vai ficando mudo no final, só sobrando os dentes se exibindo para o mundo todo e para mim, os olhos apertados e as bochechas vermelhas. Deixar isso gravado no meu celular, no meu computador. Mas não deu tempo, não. Ficou só no coração, mesmo. E aí, depois do som da risada simpática, ele me olhava como se eu não entendesse qual era a graça, porque eu somente sorria perante aquelas gargalhadas. Não deu tempo de explicar que o sorriso leve era porque eu estava mais compenetrada em lhe filmar com meus olhos jogando devagar a cabeça para trás. E quando voltava, eu sabia de cor o próximo passo de mergulhar nos meus olhos ainda rindo. Observava enquanto contava quanto tempo demorava até eu me apaixonar mais uma vez por ele. Pelo dono da risada mais bonita do mundo. Por aquele que exibia seus dentes em um sorriso vantajoso por todas as paredes do quarto, pelas da minha alma. O barulho do riso que escancarava as portas do meu coração.
O que matou por dentro foi a risada. Na verdade, foi a falta dela. Agora escuto só em pensamento, distante, intocável. E me lembro de cada segundo daquela risada que fazia do mundo um lugar melhor de se viver. Não tem mais a jogadinha de cabeça para trás, as bochechas vermelhas, o olhar, o sorriso escancarado e sem medo. Isso sim, me dá medo. E eu nem tive tempo de explicar que o que me pegou foi o riso. Nem deu pra falar para ele que eu queria aquela risada todos os dias da minha vida. E que sempre que eu estivesse ruim, ainda quero ligar para ele e falar qualquer coisa que fizesse ele rir daquela maneira linda, só pra me dar um pouco de fé. Só pra saber que ainda existem coisas pelas quais vale a pena se reerguer. Não consegui dizer que preciso daquela risada na hora de ir dormir pra saber que o dia valeu à pena porque ele estava dentro dele. Não consegui falar que ainda espero ele voltar a cabeça para mim e ainda queria que seus olhos me procurassem. Não deu tempo de dizer que o que me pegou foi a risada.



Clarissa M. Lamega

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Carta do desapego


Porque tudo o que foi bom, merece ser agradecido

Eu não vim aqui pra chorar, não. Chega de choro - porque meu travesseiro e meus amigos já ouviram demais e já cansaram de tanta lamúria, estão quase me dando tapas para eu acordar - , chega de sentir qualquer movimento doer. Vamos dar um fim a essa melancolia de querer tanto insistir numa história que já teve seu ápice e que terminou no meio do nada. Eu vim é agradecer, ouviu bem?
Porque há alguns dias atrás, eu ainda me achava a mulher meio intelectual demais, com uma lista imensa de livros debaixo do braço, meio triste por não saber como não deixar as coisas morrerem e com um desejo imenso de fazer alguém feliz. Porque, há alguns poucos dias, eu ainda era meio insana, meio iludida com os pontapés da vida, sem fé nenhuma de que as coisas poderiam melhorar, meio atordoada, meio cansada, meio icompreendida e totalmente vazia. Antes de você eu achava que nada daria certo, não botava fé no meu taco e, principalmente, não me sentia livre para amar. Achava que todos os homens do mundo eram completos babacas. Mas você me mostrou que não. Não você. Você foi só meio babaca. Infelizmente, e até mesmo por conta daquela risada que você solta quando me vê irritada. Há alguns dias, não conseguia encontrar nada a que dedicar minhas palavras, então parei de escrever. E você veio acentuando tudo, colocando os pingos e me dando uma vírgula. E essa única vírgula foi o que me fez não me permitir morrer desastrosamente ali mesmo, foi o que não me deixou ficar sentada na beira do asfalto. A tua vírgula foi o que fez a minha história continuar. E me achava meio desacreditada, meio piegas, meio solitária, muito descrente. Antes de você eu não sentia saudade da voz de ninguém, não tinha vontade alguma de levantar da cama no domingo e nunca havia experimentado a sensação de sair do trabalho sem a mínima vontade de ir para a minha casa. Agora, optei pela sua. Antes de você eu não sorria para as janelas do ônibus, relembrando qualquer coisa meio boba e só nossa. E quando digo só nossa, é porque nao compartilhei com mais ninguém, porque nenhuma outra pessoa do mundo entenderia o brilho disso tudo. Não dedicava meu tempo a mais ninguém, porque não havia ninguém que me deixasse disposta a atravessar os dias com um sorriso de orelha a orelha. Escrevo para ti essa carta, e que ao tocar no mesmo papel, você sinta que meus dedos passaram por essas linhas assim como passaram pela pele do seu rosto.
E agradeço cada um dos teus erros, também. Cada uma das tuas falhas - que te tornam grandiosamente humano. Porque compreendi que nem sempre gostar é suficiente, e que se doar exige uma coragem absurda. Que se doar é semelhante a deixar arrancarem-se pedaços do corpo, do coração. E o que pode ser estritamente válido para mim - como a doação - pode ser tremendamente angustiante e assustador para o outro. Só agora entendo, que doação também é morrer um pouco por alguém. Você, que já se deu tanto, e que já deixou tantos te tirarem um pedaço, pode não querer correr o risco de se despedaçar por alguém. Eu sou extremamente corajosa, entregue, até mesmo meio inocente nesse aspecto. Confio com todas as forças, faço valer, ajo e depois penso, e por isso não sei lidar com quem tem medo da vida. Desculpa por exigir tanto de você o que você não consegue controlar. Aliás, acho que você é o único homem em que eu sempre confiei, acreditei e continuo acreditando de maneira insuportavelmente ingênua. Tanto que meus amigos não paravam de me alertar dos riscos no caminho. Não me arrependo: minha confiança é tua. E ainda com tanto medo, tanto receio, você tentou forçar as tuas portas para eu entrar - da casa, do coração. Tanto que tuas maiores provas foram dizeres de 'saudades' e tantos cuidados desnecessários para a minha proteção. Mas eu não quis me proteger, queria sentir o que viesse: dor ou amor. E você não compreendia isso, só pensava no que me faria bem. Não consigo entender como alguém consegue tanto cuidar dos outros como você, de maneira que me irrite tanto. Não queria sofrer por antecedência, pensar nos males que talvez viessem, queria pensar só no que eu queria e ponto. Mas você arrancou meu ponto, e me colocou uma vírgula, aberta a diversas possibilidades. E agora, finalmente compreendi que você não pode - e nem deve - deixar de ser quem é por mim. Eu quis uma mudança tua, mas dentro do seu molde. Com teu jeito, tua cara. Essa tão bonita que me sorri de nervosa, sem saber o que dizer.
Mas não precisa dizer nada, não. Compreende o meu silêncio restrito também, por favor. Preciso arrumar maneiras de fazer tantos curativos na minha alma, e esta carta é uma maneira de te dizer que perdôo e aceito. Que tua vinda me fazia ansiar pelas ligações demoradas, e que mesmo após o término eu ainda recolho todos os doces e bons acontecimentos do meu dia e sinto vontade de te mandar embrulhado pra presente. Que faz falta a tua voz. Dizer que você me olhava, fundo nos olhos de que tanto temia - por eu ser decidida, meio obsessiva e intensa - e eu mal conseguia dissenir as coisas porque só conseguia prestar atenção no seu perfume que me deixava em transe, com vontade de mandar tudo para o espaço e ficar te olhando. Olha, eu não sei sentir raiva, me desculpe. Até eu mesma preciso me desculpar por isso, porque se no mínimo a raiva habitasse meu peito, eu poderia te esquecer mais fácil. Dizer que todas as coisas ruins você me fez embolorou as coisas boas também. Mas eu não sou assim, você sabe. Só sinto cumplicidade, um tanto de mágoa que passará em um dia ou dois e uma vontade meio idiota de querer, acima de tudo, que você fique bem logo. Por isso sou tão áspera, tão ríspida, sumo. Porque preciso me fazer entender que é hora de cuidar de mim, me forçar a tranformar a sua meia-babaquice numa catástrofe mundial.
A única coisa que eu consigo sentir, enfim, é uma coisa boa. A mesma fé que você me trouxe que as coisas dariam certo (e que continua aqui dentro). A mesma convicção de que sou intensa pra caramba, de que nada é por acaso e que ninguém precisa de ninguém pra ser feliz. Essa parte, os amigos e uma garrafa de vodca resolvem. Continua essa sensação de que eu sou mais forte do que pensava, e eu cresço internamente aprendendo que ninguém nos deve nada, por mais de que tenhamos nos dedicado a esse alguém. E que mesmo assim, podemos sorrir ao lembrar de uma piada idiota e uma sorrateira mão na bunda disfarçada. Que, ao invés de pedir, posso agradecer o quanto foi bom te ter na minha vida, te ver fazendo manha pra andar algumas quadras e reprimindo uma reclamação pelo meu atraso. E claro, sua admiração por mim, sua busca incessante por querer fazer parte. E se agora a saudade empurra algumas lágrimas dos olhos, eu enxugo com as mesmas mãos que um dia você encorajou a construir. E, sem dó, sem ressentimento, sem insistência, estão seguindo adiante com tudo aquilo que aprenderam. Me sinto bem em me saber meio intelectual, meio carente, totalmente determinada e destemida. Porque agora botei na cabeça que é a hora certa pra se despedir, e arranquei todos os medos de seguir sozinha. 'Ser feliz não dói', diz a Tati, e eu sigo. Leia essa carta com a plena certeza de que foi um bom homem para mim, e de que é um ser humano de coração imensamente incomparável. E, dessa vez, sou eu quem te suplica, com carinho: te cuida. Te cuida, porque saio da frente da sua vista com a plena certeza de que cuidei o máximo que pûde.
Te escrevo agora, sendo maior, mais confiante, e com a plena certeza de que até o que dói pode ser bonito.

Daquela que admira sua forma de viver, um beijo.

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Clarissa M. Lamega
 
Só enquanto eu respirar. Design by Exotic Mommie. Illustraion By DaPino